quinta-feira, 2 de agosto de 2012

NOW WE CAN WALK



Podes ir lá bem longe,
podes até ir bem ali ao lado, aqui bem perto, longe de tudo e perto do que é teu.
Podes até nem sair do sítio, permanecer no lugar, deixar sempre tudo passar.
Guiar no lugar do pendura, pendurar-te no lugar do motorista, ver o tempo rolar, esperar pelas palavras certas.
Mas sem dúvida, que se não bater no núcleo duro, não arrepiar caminho ou criar mossa na espinha, não será certamente qualquer coisa digna disso mesmo. Qualquer coisa.
Talvez amanhã, talvez amanhã, seja frança espanha tudo, mas por agora, é canelas, é vila gualdina, é bustelo sessions, é luzim sessions também, é café paiol, é EP, é minis a cinquenta cêntimos, é brincar aos arquitectos, é acordar tarde e deitar tarde, é andar com a barba e o cabelo por cortar porque o Costa fecha ao meio dia, é fazer de conta que já somos adultos e é cem por cento ao contrário nos cem por cento que tens sempre como certos por muito incerto que todas as verdades absolutas têm por norma parecerem ser.

E parte de tudo isto, é teu também. Já lá vão oito anos, desde 2004, dezassete de julho salvo erro, que tiraste bilhete, e ainda assim, vou-te vendo aqui e ali, num ou outro acto, numa ou outra conversa, esse "não entres em paranoias", meu, fazes cá falta de vez em quando, para podermos comer sandes de presunto lá na varanda de casa, contigo e com a Lena antes que o Berto chegue a casa, mesmo quando os palitos são apanhados à mão sem que a ASAE dê conta. Ainda estou à espera daquela mega jantarada e ainda me deves sessenta cêntimos daquele perna-de-pau. Sa foda.

Um forte abraço, onde quer que estejas, demorei a escrever-te, mas bem, sei que o Alfa e Omega têm internet sem fios, por isso, ficas já a saber, que nestes últimos oito anos todas essas lições serviram para ir à Holanda ver as planicies e os canais, ir a Coura, ouvir Nirvana e aproveitar da melhor forma.

É tudo menos Banal.

R.O. - Now we can walk


every breathe we take
like it was the last one
every sip we take
we could drink the ocean
..
a million miles away, a billion stars a day







sábado, 30 de junho de 2012

O FRÁGIL



O céu estava limpo.
Sentia a textura do alcatrão a percorrer a borracha mole dos pneus da bicicleta. O vento vinha ao meu encontro, trespassando-me; estava parado, mas eu movia-me contra ele. O sol estava a pique, os pássaros voavam em bando, as pessoas passeavam sobre a rotina maquiavélica que tomava conta do quotidiano. Planava harmonia: dava vontade de fechar as pálpebras, puxar o ar bem lá dentro, encher o peito e deixar soar notas bem altas de êxtase e de alegria - abrir os braços e encaixar na dinâmica brisa.
Por momentos desviei o olhar para focar melhor o balão vermelho que se soltara da mão de uma criança. Depois travei.
Agora estou sentado numa das muitas cadeiras da esplanada que envolve o pequeno lago dos patos. Os patos parecem-me distantes, flutuam numa dança ainda mais desastrosa e tacanha que a habitual. E sinceramente não consigo perceber o seu número - tem segundos em que conto seis, minutos nos quais me parecem dezenas. Procuro nos bolsos uma réstia do pão do pequeno-almoço para lhes atirar mas apenas meia-dúzia de moedas me acompanham.
Mas não é isso que aqui faço sentado, sobre a sombra, à espera do meu sumo natural de laranja. Para dizer a verdade, não recordo mais o porquê de me encontrar aqui sentado. Os sons das pessoas que à minha volta deambulam parecem-me murmúrios de um tempo distante, uma confusão que não compreendo porquê, não pertence a este lugar. A ligeira impressão de estar em dois lugares em simultâneo, num contexto cruzado. A imagem transmite-me algo que o ambiente que me envolve não traduz. O sumo nunca mais vinha e eram horas de ir, não me recordo da transparência pálida do relógio, mas sabia que já havia demasiado tempo que estava sentado a assimilar as dinâmicas que à minha volta se sucediam em catarata. Por instantes reparei que os gestos assumiam velocidades antagónicas, como se para uma quantidade de energia aplicada outra equidistante e antitética  da primeira fosse a resposta dada.
Levantei-me, comecei a caminhar sem pressa nem rumo. Encontrei-me sozinho no meio de uma dessas praças da cidade, com um cavalo de ferro montado por um ilustre qualquer no seu centro, a sua difusa sombra desenhada no granito rijo do pavimento. Julgara eu que o céu estava limpo e sem nuvens, mas a luz parecia começar a escassear, um tom cinza varria o todo.
Quando dei por mim estava ofegante, a corrida massacrava o asfalto, as pernas martelavam que nem pistões para cima e para baixo, e eu continuava a correr, desalmadamente perdido num vazio que me consumia, agora e sempre, dia sobre dia, hora após hora, no negro da noite ou na luz fosca dos dias. Os poros dilatavam e expulsavam um ácido suor, a camisa colava no peito, o peito colava no coração acelerado e descompassado, os meus olhos semicerravam para melhor ver ao longe mas continuava sem compreender além do que via realmente e pior do que isso, não atingia o porquê de tamanho sprint. Mas sabia que esse era o caminho, que tinha de continuar a correr, que não havia outra saída senão aquela.
Um intenso ruído manifestava-se atrás de mim. Olhei sobre o meu ombro direito, entrei num estado de pânico ainda mais avassalador e vertiginoso. Não conseguia contar quantos compunham a massa disforme e caótica que se movia na minha direcção. Era tudo demasiado real, numa luta que travava comigo mesmo sem eu próprio saber. Atropelavam-se, escalando uns por cima dos outros, outros por baixo de alguns, a maioria correndo como loucos, arrastando em si uma força que se multiplicava exponencialmente a cada metro percorrido. Merda! A dor de burro estava a tomar conta da zona abdominal direita, era sufocado pelo ar que me enchia os pulmões, mas seria ar ou qualquer outra coisa? Conveniente. Empatava-me a respiração, aniquilava o meu poder de decisão.
Estava finalmente perdido numa ruela calcetada e que afunilava em direcção a uma enorme escadaria em duros blocos de granito e da qual vislumbrava uma parede azul ciano, bem lá no fundo, ainda distante de mim. Galguei as escadas, uma a uma, duas a duas, interessa pouco saber como, mas parecia-me mais uma escada rolante, rolando em sentido contrário ao meu. À medida que ia tentando manter a velocidade, sentia que já não mais sentia as pernas que me guiavam, estava trôpego, adormecido no meu mais ínfimo interior, tentava agarrar o corrimão das escadas que escalava mas falhava sempre, e sempre, sempre me desequilibrava mais um pouco.
E eles continuavam a correr atrás de mim, e já não conseguia mais contar nem uma só cabeça que a compunha - era um conjunto heterogéneo a polvilhar, difuso, um borbulhar de carnes e intenções, racional mas ao mesmo tempo grotesco, e o pior é que já preenchia tudo o que havia ficado para trás, causando um desespero que me apertava não só contra a corrida que me levava ao plano azul final, como também espremia o meu interior asfixiado, num constante martelar ruidoso que consumia bem lá dentro, no fundo de mim, no mais vasto e sentido medo.
E corri. Corri como se o amanhã não fosse uma certeza, mas algo pelo qual tinha de lutar naquele preciso momento, momento que já me esquecera qual era, qual o seu sentido, salvação ou desgraça, vitória regada a lama e sobressaltos, derrota recalcada pelos milhentos pés que me seguiam sem desarmar.
A cada passo que dava, mais me afundava nos paralelos escorregadios. A chuva começou a cair e juntamente com o suor que me escorria na testa e que me turvava a visão, repuxos lacrimais fugiam da íris, a saliva jorrava e relançava-se no ar pela minha boca entreaberta, mas de onde não saía uma única palavra. Era tempo de correr, de me salvar. Porquê? Não me recordo. Mas sempre gostei de correr, sempre que roubei um apalpão a uma miúda qualquer lá da escola, sempre que tentei correr até à linha para cruzar para golo, sempre que me acordei mais tarde para apanhar o autocarro ou sempre que me vi perdido no meio de meia dúzia de pequenos delinquentes que me queriam levar os trocos e o telemóvel. Não era este o caso agora, mas através do senso comum e do mágico poder da analogia, penso estar em condições de dizer que esta era uma bela altura para correr.
Uma imagem sobrepôs-se à estreita rua, um baloiço repousava num mínimo jardim, tão mínimo que parecia não ter espaço para o gesto prolongado e suave que o baloiço tomava. Foram instantes apenas, incontáveis como tudo o resto, tão depressa vieram como foram.
E o azul era cada vez mais intenso, os murmúrios e berros e ruídos e caos lançados sobre mim, vindos de trás, já quase roçavam no meu ouvido, pareciam até tocar-me nas costas, desviarem-me as pernas. A camisa era já um trapo que colado a mim manifestava e simbolizava ainda mais o desespero de uma fuga não anunciada e na qual me vi sem assim o prever. Queria-me lembrar de alguém, de uma imagem, de um rosto, de uma palavra, mas só faziam eco as notas industriais entrelaçadas em pianos e sons do fundo do túnel a ressoarem nas paredes do meu crânio, a partirem cada pedaço de textura encefálica, desespero de um grito que teimava em não sair. Havia passos que levavam metros, outros pareciam apenas superar meros centímetros, um vai e vem descompassado e irregular, uma espécie de cavalgada em terreno perfurado sobre uma incessante carga de água que varria o chão e deixava no ar o cheiro a terra molhada.
Um bombo que me perfurava, um ritmo louco que me mantinha numa dramática e furiosa fuga, e todos eles mais próximos, tal qual o fim da estreita e claustrofóbica rua que espezinhava, e com esta, o muro azul ciano que agora, com a curta distancia que nos separava, se apresentava sobre o tom verde água, estando eu sobre a água que caia sem dó, a um ritmo amplificado pelo intenso palpitar de tudo o que me envolvia.
Uma nova imagem se abateu sobre mim. Um miúdo caminhava pelo passeio fora com um gelado na mão e à semelhança do que nesse momento se passava, também o miúdo não conseguia pronunciar qualquer palavra perceptível. Ao andar, uma perna atrapalhou a outra e na ânsia de agarrar o gelado, a testa foi de encontro ao cimento em esquadrilha do passeio.
Mas eu ia salvar-me, trepar o muro, ganhar tempo, escapar de um tsunami de gentes que teimavam em não me largar e que a centímetros de mim, numa infernal e estridente parafernália de sons e ruídos, me despedaçavam aos poucos, retirando-me o pouco equilíbrio que me restava. Vertiginoso escape de sentimentos e adrenalina, já não ouvia mais a minha silenciosa respiração, o ambiente era demasiado alto, numa escala anormal e sem proporção aparente.
Escorreguei finalmente, e ao contrário do que a minha mais infinita vontade desejava, réstia de esperança encharcada em sangue, suor e lágrimas, o sentido descendente contrariou o ascendente e o meu corpo projectou-se na direcção do verde-água do muro. A rugosidade da pedra pintada fixou-se em mim, e a minha retina reteve-se, bem aberta, no encontro entre o meu crânio e a barreira que a si se empunha, esmigalhando em pedaços geométricos que em nada se assemelhavam à clássica massa disforme e de cor rosa que julgamos compor o cérebro quando uma situação deste género acontece.
O ar entrou de rompante, preencheu-me, abri uma segunda vez os olhos focando o infinito.
Uma claridade imensa me suprimiu num cruzamento franco entre o melhor orgasmo e o espasmo do vómito que se acumula e anseia sair, possuindo-me assim por completo, num arrepiado esgar da espinal medula que me elevou no ar, os cateteres rasgaram os braços e esse emaranhado de fios transparentes e avermelhados, como cabelos, envolveram-me no seio do tecido branco que me adornava. O vermelho pontilhou o algodão, pintas e mais pintas de uma cor forte e viva, era aliás, tudo surpreendentemente real e intenso, ainda que desfocado e sem profundidade.
A espuma percorria-me o canto da boca, deslizando sobre a vasta barba seca e áspera sobre a qual uma sonda repousava. O ar era puro demais: fresco como o gelo, cortante e redentor.
Estava sozinho e fechado num espaço esverdeado e baço, num vácuo no qual eu sugava o seu interminável oxigénio e as pétalas secas de um vaso repousado na pequena mesa ao meu lado assistiam impávidas e serenas, ao meu alucinante renascimento.


Um Conto de Ivan Coelho




para um concurso,

algures em 2011.

domingo, 24 de junho de 2012

MONTE SINAI

Estrebuchei entre o edredón na sala, sobre o colchão, à frente da tv que ficara ligada nos desastres de aviões do National Geografic.
O Cruz acenava-me com wugazi a tocar no meu celular, era o ricardo.
- Tou! como é?
- É para ir. Estou na Galiza, quatro piscas.Acordei-te?
- Não. Já vamos.

Meio morto e meio vivo, arrepiei caminho por entre as luzes amarelas, os reflexos dos semáforos no alcatrão, os néons, os anúncios, o deserto urbano, desliguei a sofagem que já ia em quarta vitesse e apanhei um leitão e dois coelhos pelo caminho.

Iamos à vandoma, fazer negócio, comprar artigos de marca, frança espanha e tudo o que tinhamos direito.

Estacionamos perto da Batalha, vesti o casaco de ganga, puxei do carapuço, larguei a carteira no "tabelier" e peguei em meia dúzia de moedas para meter ao bolso. Descemos as ruas, passamos pelo Monte Sinai, bom presságio. Chegados às fontainhas, percebemos que ainda era cedo e a caravana estava para passar. Havia que esperar, olhar para os montes de canetas e canecas e porta-chaves e ferros de engomar e VHS e discos e cds mapas e livros de todos os jeitos cores e feitios, cacos da sala de estar, pratos da mesa de jantar, peças de cerâmica e cristais baços do tempo, havia lugar para tudo, sem estarem de nível com a inclinação ou de nível com a descida financeira que se avistava. Eram trapos, eram rostos escondidos entre plásticos e cobertores, mingados pelo frio, pela vontade de fazer uns cêntimos. Rostos apagados pelos tempos, esquecidos pelos outros, em segundas e terceiras oportunidades que davam aos mesmos e às mercadorias, trocas e trocas, vendas e revendas, prendas de casamentos que já haviam vindo e ido, tal qual os euros da carteira.
E havia os outros, os do rádio que nunca tinha sido usado, da máquina de barbear sem caixa porque tinha apanhado chuva e estava húmida e foi para o lixo, ou do jogo que estava dentro da consola, dos discos a dois euros que eram do Pai do outro, das colunas que ainda ontem tinham sido ligadas à televisão para ver o jogo de Portugal. Enfim, um sem fim de contos e estórias e fábulas artísticas, romanceadas meia hora após meia hora, até o sol raiar, até não haver mais força para aguentar, verdadeiros hinos ao lirismo popular, sem desgaste, sem uma pinta de mentira a pairar, sem vergonha ou hesitação. Era o que era, e o que não era, passava a ser.
Regateamos. Perguntamos. Conversamos. Até as seis da matina darem conta do tempo passar, já de dia, num carrossel de sobe e desces, pagando para ver, vieram os jeans e a camisola de um adepto croata que em dois mil e quatro se esqueceu de ir dormir ao hotel e ficou pela baixa, de calças para baixo e tronco nu.

Viemos embora, cansados que dói.
A ilusão é tanta, que depois de circulos e circulos encontramos aquilo que não fomos lá para encontrar, mas por força das forças, o que tem de ser tem mais força ainda, acabamos por levar, por meia dúzia de paus, animados pela poupança, pela oportunidade, pela sorte, e pela vontade de encontrar mais outra coisa que precisamos mas não sabemos. É isso, e bastante mais, é palpável, mas também é placebo.

Sabe a golo e como tal, Sexta-feira há mais.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

IF ONLY WE COULD FLY



Não há quem tenha feito mais.
Há quem tenha feito menos, ou talvez nem isso, toda a gente pregou um prego serrou com o serrote aparafusou com o berbequim da black and decker, colou com a cola branca, segurou puxou empurrou tirou barrotes e barretadas, ripas e ripadas enquanto a musica era ripada, fixou e empenou, nivelou e criou.
Há coisas incríveis, pela força de alguns, pela vontade de todos.
No inicio era um camião com madeira.
No fim, uma peça com imensos nomes gravados, de artesãos a carpinteiros, mirones, mulheres da fruta, homens do prego, serras em riste, suor em bica, bikini girls with pressureguns, todos ao molhe, fé no Deus do Norte.
Serrim no nariz, maçã encravada nos dentes, arroz malando no bucho e a pele queimada.
É como a volta a Portugal em bicicleta, mas melhor.
Ou como levar com a poeira do rally etapa de Abragão, mas melhor.
Ou como ganhar aos matraquilhos, mas melhor.
Ou como jogar ao esconde esconde e ficar até ao fim e esperar até rebentarem a bolha, mas melhor.
Ou como ir para a praia comer massa com atum e beber Alandra e se calhar ainda é melhor.
Ou como dar a volta ao mundo até milão e ainda é melhor.
Ou como comer um gelado debaixo de uma árvore numa tarde de verão, mas melhor.
Ou correr à chuva com o guarda-chuva debaixo do braço, sujeito a cair e partir os dentes mas ainda assim continuar a correr à chuva e a cagar para o guarda-chuva, e é melhor, acreditem que é melhor.
E ficar no escuro a olhar para o tecto e ouvir aquela música com uns sennheiser HD-25 II, talvez seja melhor.
E comer um pão com manteiga que o padeiro deixa pendurado todos os dias desde que me conheço, uns dias mais duros que outros, acompanhados pelo café da cafeteira que tem aquele sabor com mais de vinte anos, e ainda assim, tenho as minhas dúvidas que não seja melhor.

Basicamente, comer com as mãos, beber com as mãos em concha, escrever com uma bic, desenhar com os dedos, fazer bolinhas com escupe, saber as horas pelo sol, martelar pregos, serrar barrotes de madeira de pinho, erguer vigas e prumos e outras coisas, será sempre melhor que passar horas sem fim sem fazer nada disto ou a fazer todas as outras coisas que fazemos todos na grande parte dos dias e horas e meses e segundos e na vida e no mundo.
Todo.


Como diria o Zahovic ao Américo, Puta Caralho
(foi bom pra xuxu).






if only we could flaaaaaaaaa



segunda-feira, 21 de maio de 2012

DINOSSAURO JÚNIOR


No meio de uma aparente embriaguez, revejo os limites do cosmos, sentindo e palpando com as próprias mãos os confins de átomos e teoremas, sabendo de antemão que após tudo isto, apenas o pó nos aguarda.
E infeliz o pensamento, o de que há algo depois de tudo, ou nada antes de algo. Mas assim vivemos felizes e contentes com a próxima meta.
A fuselagem nao tarda em quebrar, as luzes nao demoram muito para fundirem, e no final a dentadura não tardará em desaparecer de madura.
Assim vamos indo e vamos vendo, olhando pelos seguintes, os que hão de vir, os que fomos em nosso tempo.
E tempo após tempo, iremos satisfazer o primordial desejo de conquista adornado pelo sabor da derrota. Sempre assim foi, e sempre assim será de ser, lei após lei, mudança após mudança, macacos sobre macacos, tentando ser mais que simios, falhando dia após dia, era após era, até Deus se fartar e partir esta porra toda.

A História diz-nos que nunca aprendemos com a História.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

FORGOTTEN AND ABSORTED INTO THE EARTH BELOW



à noite, quando o asfalto reluz,

gosto de caminhar a essa hora, quando se vêem as fachadas dos anúncios e das varandas e janelas, quando se ouvem os cães a ladrar lá de cima dos pátios. Gosto de assim caminhar, auscultadores a debitarem palavras e mais palavras, o meu cão a seguir-me por perto. Dá-me gozo, gesticular sozinho, olhar para tudo aquilo que já olhei milhares de vezes e, ainda assim, me parecer novo. São pensamentos e palavras, actos e omissões, que nos percorrem o consciente adormecido pela inércia do diário, e assim, pé ante pé, sem mais ninguém por perto, vamos fazendo o rescaldo, o aftermath, das horas e eras que vivemos.
Comming back swinging.
E o prazer reside no sentimento de propriedade de algo que nunca será meu, a cidade, o bairro, as ruas.
Há na solidão da noite, no vazio do escuro, a falsa imagem de que tudo o que nos envolve vive e existe, naquele momento, apenas para nós.
Porque mais ninguém segue por perto.


smashing pumpkins - 1979

domingo, 13 de maio de 2012

THE OTHER SIDE OF MADNESS pt.3


Hoje ia fazer o percurso A, primeiro até ao Z, aquele no qual passamos pela esfinge, debitamos várias palavras no melhor inglês possível, falamos sobre tudo aquilo que nunca soubemos saber sobre o tema proposto, voltamos a esboçar mil sorrisos façanhas e teorias da conspiração sobre o maravilhoso complexo arquitectónico que calcamos. Mas hoje é um dia diferente, agora e aqui, onde me encontro, sinto que detenho a sabedoria para a resolução de todos os meus problemas, problemas que são meus e teus e deles, dos grunhos que iam comigo, um casal de Italianos estúpidos que só faziam perguntas ridículas e às quais eu respondia de forma mais ridícula recebendo em troca um acenar de cabeça de quem pouco pensa e muito diz. E sim, eles vinham comigo, iam viajar comigo até ao confim deste e do outro universo, porque após anos e anos a calcar este lugar, segredos era coisa que não havia. Já me havia decidido, aquando o percurso até aqui, hoje era o dia e chegara a hora de ir para outro lugar, can´t you see the signs?!
Pedi-lhes dois minutos, entrei num barraco forrado a ripas de madeira empilhadas na vertical de uma forma desconcertantemente tosca, puxei da papelada que trazia no bolso. Baixei as calças, sentei-me sobre o buraco, deixe-me relaxar. Larguei um bloco de cimento acastanhado, amassado pelos meus intestinos em direcção ao vazio.
Era só uma lambidela, só uma ponta desse músculo de sensações e papilas e acções e provérbios verbais e literais ia tocar no papelzinho, tão pequeno que nem para confeti dava, ainda assim, havia espaço para o sonic the hedgehog. Lambi o papel, lambi a mão, lambi o braço, lambi as unhas, lambi o peito, lambi as ripas de madeira. Senti o rodopio do furacão, o tapa na pantera, arreganhei a boca, puxei os lábios para fora, fiz caretas à minha frente sem espelho sem nada, abri a porta e a luz passou por mim à velocidade que ela gosta de ter, rápida como o caralho. E fui, pé ligeiro, sem cautela.
Seguimos pelos becos e estreitas galerias, cada vez menos luz, cada vez mais sombra, até que demos por nós perto do início da grande subida, o bilhete pelo qual todos anseiam pagar, a ascensão divina, o triângulo ancestral, a grande pirâmide. Um degrau, dois degraus, and so on, até que, para pura e simples estupidez dos que me acompanhavam, eu desloquei um dos grandes blocos de adobe, amassados pelas eras, e o maciço pareceu uma pluma nas minhas mãos. Podem entrar. Caminhamos sobre a poeira, na escuridão quase total, faltava uma tocha como nos filmes, apenas se ouvia o vento assobiar, aqui era bem mais fresco, mais claustrofóbico. O interior fazia lembrar um caleidoscópio, daqueles que se faziam no jardim-de-infância. Um grande amigo que um dia cá tinha vindo, e eu, sem mais nada para onde ir ou fazer, sem lugar onde cair morto, decidi acatar a decisão de seguir para o vazio, para onde esse meu conhecido fora um dia e um dia me havia dito que descobrira o âmago de tudo, o espaço sideral e multiplicado de uma sala que continha todas as outras, um lugar tão sombrio quanto esmagador, pelo silêncio, pela visão assombrada do interior invertido da pirâmide do faraó, diabo carregue o outro onde trabalhava.
No meio do rodopio, ouvia os outros dois burros a saltarem de alegria, estavam lá dentro.
Abri a carteira, tinha meia dúzia de tostões. Merda, não era suficiente para a grande viagem até ao paraíso. Ainda tinha guardado no bolso de trás das calças um pequeno seixo, de estimação, para situações como esta. Fui directo às jugulares, o sangue correu no meio dos ruídos silenciosos e profundos do espaço iluminado e vibrante, era uma bad trip à maneira, uma puta tão grande que nem senti pena das duas ignorantes almas que me acompanhavam até então, seus nomes anónimos, anonimato que me ajudou a superar a dor da perda, dos outros, não a minha, e sobre a qual apenas residia a minha vontade de perceber se ia para o além com mais uns trocos no bolso. No fundo ri-me bem lá no meu íntimo mais profundo.
Carteiras revistadas, chegara a hora de partir.
Envolto em tudo aquilo que me pertencia como memória de um punhado de pó que se chamava vida, agarrei-me aos tomates e saltei para o vazio da pirâmide, invertida dimensão de muitas outras, não berrei, segui calado porque calado normalmente digo tudo. Enquanto fui caindo no vazio, ainda consegui ouvir os pianos.
Um piano, dois pianos, três pianos, PUM!
Esperneei, cheio de farpas a cravar a pele, com o deserto na garganta, pintado em tons de ocre, cego pela luz, coberto pela chapa que escaldava, todo cagado da cinta para baixo, nu.

- So take a trip with me, to the other side of madness -
Cro-mags - The other side of madness