Estive enfiado no covil durante vários dias, semanas, horas sem fins nem ínicios, segundos em que a vida estagnou num segundo plano, numa redoma de vidro baço e manchado com bolores e dedadas pegajosas. Interessava produzir, reproduzindo slides e métricas das proporções dos rectângulos de oiro. Comiam-se restos dos restos dos dias anteriores, os pratos atulhavam-se na cozinha, o sofá era a cama, a cama era secretária, a retrete era máquina de lavar, a garganta estava seca de tanta ânsia e já não me recordava do som que as minhas cordas vocais produziam pois nunca mais falei com ninguém sobre alguém ou sobre alguma coisa. Um vazio total, de tudo e de qualquer coisa, funcionando ao rumo dos vagares e dos tiques nervosos, no número três da rua da torrinha, torre celestial de contacto com o aparente stress localizado de uma moleirinha sem razão.
Até que acabei quando dei por mim, e olhei pra mim acabado, acabando.
Fiz tudo aquilo que tinha de fazer e ainda mais alguma coisa que não era necessária mas achei que por motivos deveria ser feito estando tão da perfeição que tanto procurei com alento e dedicação, sem olhar a meios e sem tentar compreender o que havia ficado pelo caminho. Devia entregar a encomenda. Incluí metade da minha mão direita e outro terço da alma no processo, faz parte, acho eu, do que todo o bom trabalhador faz para com um bom compromisso de trabalho.
Enquanto olho para a televisão a debitar milhares de palavras e silabas e metáforas inteligentes por segundo quadrado, fumo um cigarro e olho o vazio do infinito que se opõe a mim. Estou exausto e ao mesmo tempo ultrapassado por um alento gigante, do género de alentos que as pessoas têm quando acabam ou começam a fazer qualquer coisa que dignifique adquirir a sua própria existência -jogando ou não no Balazar- , que lhes diga "estivestes bem", que lhes faça meter os tomates de fora da camionete feita janela e berrar para o mundo que porra é esta que não é porra nenhuma mas me faz soltar todas as gargalhadas cheias que já dei no Mundo. Ya, afinal era isso, a fidelidade fotográfica da minha existência que enchia de capacidades e probabilidades de sucesso e tudo o mais a que tinha direito.
A coluna emitiu um choque que me arrancou do cadeirão de pele escura e a cheirar a couro de consultório de oftalmologista, nafetalina e mofo incluídos e lembrei-me que estava parado com as cinzas espalhadas pela ganga das calças abaixo, sentado que estava e de boca ligeiramente aberta, como quem cola depois de uma directa, ou depois de uma boa punheta, ou de um bom final de filme de bollywood. Bem me parecia que não saia de casa há quilhões, estava taralhoco de todo, pasmaste zé?! Disse que Não bem alto e colei com UHU os pedaços de massa encefálica que havia deixado descolados pela carpete da sala.
Iluminado pela encomenda que carrego nas mãos, desço as escadas a correr, galgando de três em três os cobertores em marmorite esverdeado cor de musgo, escorregando aqui e ali na junção com o espelho e, mesmo antes de chegar ao último degrau, alias, ao primeiro, foge-me o pé-direito, aquele que é cego e remata sempre para o terceiro anel, unindo a minha cara ao frio do desgastado pavimento de entrada. Olá, estás bom? pergunto eu assim de lado, com um sorriso amarelo em metade da cara e a outra metade vermelha da pancada. Sa foda, pensei eu. Siga a marinha, que já se faz tarde. Cuspi os dentes para a palma da mão e guardei-os no bolso das moedas pretas pequenas. Mais tarde, quando fosse rico e novo, poderia dar-me ao luxo de os banhar a ouro e de fazer um par de brincos com eles.
Lá fui eu a subir a torrinha, gás colado e manco do pé esquerdo capaz de ver entre a penumbra de um ínicio de manhã de inverno, qual ao certo não sei, entre risos e berros, alcoólicos anónimos que prezo ver com euforia e sangue quente a jorrar pelos olhos. O burburinho das pessoas que tem trabalhos normais, que tem horários e pessoas que as esperam pacientemente dia após dia no conforto de um lar normal, por de entre as colchas rendadas e as porcelanas de rapozas e cães de caça no hall de entrada, normal.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
INCESSANTE GUADALAJARA p.2
De qualquer das formas, voltando
ao assunto, ao tópico, ao conto sobre este pedaço de carne tatuada, suada e amolecida
pelo sol, estava eu ali encostado, apreciando a movida dos subúrbios, quando
recebi um pedido. Central: “60 Degollado. Algun coche?" não era bem a
minha praia, mas ao invés do triste e terreno cabaret e do cheiro a malagueta
torrada, ganhar a vida era o que constava na lista de afazeres do dia;
"132 Rámon escuto! voy pronto". Rodei a chave, segui em direcção à
downtown, ácidos ecstasy coca charros e noite e precisava de música a condizer.
Carreguei no forward, estava farto da Mariachi FM, aqueles artistas de bigode
nunca mudam o reportório. Estava mais numa de música índia, cena europa,
américa, cena anglo-sáxonica, frança espanha e tudo. Era da moda, dava prás
contas e as gordas normalmente apreciavam. Lalalalalalalalala e num instante a
vida ganhou outro sentido, tudo flores e discos voadores e coisas lindas e
cores maravilhosas do outro lado da janela. Era da música ou era da fuga aos subúrbios?
Pouco importava, o transito caótico sorteava o acaso à sorte de buzinas e
calcadelas, encostões de pára-choques, encostos de ombro, encostos de peitos,
tudo valia, e a minha música maravilhosa ia saindo dos ranhosos speakers
estéreo que havia comprado por meia dúzia de pesos a um ladrão amigo que os
tinha roubado a outro amigo ladrão, e como ladrão que rouba a ladrão tem cem
anos de perdão, perdoei-o a ele e a mim, ficando assim entre nós o que jesus e
nosso senhor não tinha tempo nem paciência para saber ou resolver ou julgar.
Umas colunas estéreo, logo Ele que andava tão ocupado ia lá querer saber de
tamanha ninharice. "all the other kids", e lá ia eu lançado, que nem
flecha, com uma belina infernal, pela Javier Mina abaixo, virei para a Avenida
de Juárez e fui directo ao ponto marcado. Restaurante "El Globo".
Estacionei, olhei à volta, não era normal esperar numa cidade como Guadalajara,
muito menos a meio da noite, o trânsito começava a cobrar alto e tempo era
dinheiro. Mirei o taxímetro, abri nova conta com horário nocturno, sempre me
dava mais uns quarenta por cento, e caso o muchacho não topasse, beautifull. E
começou aquela música na rádio, nem era indie nem era porra nenhuma, era do
rock, pesadão, teso, forte e feio a rasgar aço. Arrotei o burrito, saquei o
palito da camisa e palitei como se não houvesse amanhã. Os meus Rayban davam-me
aquela pinta, estava na merda, mas no auge, se é que me entendem, nem eu sei
muito bem explicar, mas sim, aquele arrepio na espinh... paaaaaaaaah!
Centenas de estilhaços invadiram
o habitáculo, cortando a minha pele já de si triturada de bechigas em várias e
finas camadas de outras peles avermelhadas tipo carne picada, o susto por pouco
fez-me arrancar o canino à palitada, cortei a gengiva, os óculos fugiram-me do
rosto, o coração saiu pela boca, mas o rádio continuou a tocar, aquele metal
incandescente e venenoso, mesmo cru e badalhoco, e eu ali sentado, com a calça
molhada de chichi e sem que um feijão me coubesse. E como nunca há duas sem
três nem duas sem uma, um individuo apressou-se a fazer-me companhia no lugar
do morto, que ainda estava vivo, e apontando uma glock polida e bem tratada, da
qual não constavam sinais de "R E P L I C A" adornando o seu chassis
leve e resistente, me disse "Podes seguir em frente, pé ligeiro e
cautela". Ainda estava eu a recuperar do cagaço, suado que nem um frango
quando vi a navalha a reluzir o sol do último segundo do último dia do último
momento da única e escassa estupidificante e nervosa vida, e o individuo magro
e de pele clara, cabelo cor de cenoura, óculos à John Lennon e sotaque de
gringo me diz: "esta não é aquela música rock´n´roll filha da putice
daqueles brits raçados de pitbull mestiço africano?" ao qual eu respondi,
"São, tocam pro mundial, mas a outra malha deles é melhor. Mais
negra." Nesta fase da conversa, convinha ser simpático, visto ter-me
partido o vidro do pendura, entrado sem ser convidado, e ter feito sabe-se lá o
quê lá atrás onde o fui apanhar, cheio de folia e ar. Mas algo me dizia que não
tardava muito em saber as respostas aos meus teoremas e teorias da conspiração
e já que quando era miúdo achava que essa era a melhor parte, a de saber as
respostas às perguntas que sempre quis ver respondidas. Posso dizer que estava
a morrer por saber mais!
Galgando passeios e avenidas,
Guadalajara sorria para mim, a troçar da minha sorte, nula, logo eu que só
queria trabalhar e continuar a minha rotineira e pacata vida mundana, abraçada
de todos os sonhos que nunca quis para mim, dizendo adeus a todos aqueles lá ao
longe já há muito se haviam tornado meros devaneios infantis. Prometi que se me
safar desta, prometi mesmo, até cruzei os dedos enquanto agarrava o volante com
os guizos mingadinhos e escondidinhos entre as virilhas e as cruzes e as
caveiras a olhar para mim com cara de tanga lá de cima do alto do retrovisor,
me ia uma pessoa ainda melhor, tentar voltar a ir à missa, jogar na lotaria,
comer menos gorduras, fazer mais exercício, vender a merda do táxi, endi...
ouh!
"Vais continuar agarradinho
à tua alma como se outra não tivesses ou vais fazer um bocadinho de conversa de
sala ó mal educado? As visitas são para se receber bem!" ao que eu
respondi "A chaleira está partida e a cafeteira está sem água, mais alguma
coisa que deseje neste momento caro convidado que me partiu o vidro do táxi,
entrou sem pedir licença, me apontou uma arma à moleirinha e me está a
"sequestrar" temporariamente?". Ah lata do caralho, cara de cu
de cenoura mal descascada... "Até ver, sou eu que aponta a arma e és tu
que tens a arma junto à fonte, por isso, baixa a bolinha, guia com calma que
esta merda não tem airbags e o cinto mais depressa nos decapita que ampara o
tombo. Continua a seguir para norte".
Ai Guadalajara, tão bela me
pareceste, em slowmotion, slide by slide, side by side, a correres do meu lado
esquerdo, com o sol de poente a aparecer interruptamente na malha regular dos
bairros dos ricos, outskirts americanizados, à espera de um sonho, não do meu
nem do teu, do deles, dos outros, porque o meu, naquele momento passava por uma
noite escura e sem pinta de lírica nocturna, ya, escura como o caralho, breu
infinito e eterno, sem mesmo acreditar que iria conversar com Alpha e Omega em
poucos segundos, ia apenas, para outro lugar, ou lugar nenhum, vazio celestial.
Mas ao que parece, ainda não fui.
O resto? Falamos de bola e política, sendo que eu, muito moderado, disse que
sim a tudo e acho que concordei com muitas coisas que o cenoura disse, nem era
muito burro, nem sequer o posso julgar assim à primeira, estava apenas a fazer
o trabalho dele. Estava tudo bem até um carrinha cor de melão maduro ter
passado um vermelho e espetado uma grande pancada do lado do morto, que estava
vivo até então mas para delírio da plateia passara a morto num ápice, degolado
pelo cinto de segurança e com um tiro de glock na barriga, tripas a treparem
calças abaixo, todo borradinho na sua própria gosma. Azar do caralho, nem me
parece mau diabo, mas também não assumiu bem o papel de riding shotgun,
primeiro porque estava com um revólver, segundo porque não me estava auxiliar e
terceiro e mais importante, não estava suficientemente concentrado para não se
perder com politica, gaja e bola e fazer o trabalho dele. Limitei-me a
desapertar o cinto, estiquei as costas em vez do pernil, e quando ia sair do
carro, meia dúzia de indivíduos encapuçados fizeram o favor de adormecer com
uma pancada seca nas traseiras da nuca.
Agora? Presumo que esteja numa
cave qualquer, espancado até ao tutano, nu, e não tarda estarei do outro lado.
Se tenho pena? Sinceramente,
estava com mais receio de chegar a velho com Alzheimer.. comi muita carne, vi
muita coisa.
Amanhã há mais.
Que sa foda o Armaguedão, esta
merda é um inferno.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
INCESSANTE GUADALAJARA p.1
Está escuro. Um ruído em
constante pronunciação ecoa no meu ouvido, agudo e chato, assim me estala os
tímpanos e me rompe a concentração. Não sei por quanto tempo dormi, nem sei que
porra estou aqui a fazer, deitado e amordaçado, com o cimento a romper-me a
nuca e as ratazanas a troçarem de mim. A cabeça está partida em dois, lambo os
lábios e sabe-me a sangue fresco que ainda percorre os espaços entre a barba
espessa e farta que me envolve. Não tenho tido grande sorte, grande vida, ou
merda alguma, não têm sido dias fáceis, não me tem corrido de feição, mas
também não é que fosse caso para tanto. Hoje exagerei, ou exageraram, ou
exageraste, Cristo que já não olhas por mim há algum tempo, aliás, Eras que já
ganharam pó de tanto desconcertante consolo abandonado.
E que fiz eu? Ou de que é que me
lembro?
Hmmm.
Estava adoçado ao encosto de
tecido rompido do velho mercedes C 190 amarelo e preto, interiores com o falso
brilho dos produtos de limpeza auto, as caveiras e cruzes e cristos e avés
marias a penderem do retrovisor, o rádio a tocar baixinho na Mariachi FM,
guitarra sobre guitarra, mambo sobre mambo. As putas amontoavam-se na rua
adjacente, acenavam-me, diziam olá, cravavam um cigarro ou duas de conversa,
conhecia a grande maioria delas, entre vueltas e vueltas, quecas consentidas no
banco de trás com gordos magros velhos novos leprosos ou chulos de outras
galdérias, com ou sem a minha ajuda, com ou sem pé de dança, interessava-lhes o
meu banco de trás e interessavam-me uns pesos a mais nem que isso significasse
fazer do taxi motel, melhor, das tripas coração, literal, pau para todo o
trabalho.
Deu-me a fome, fui comer um taco
ao "Godzilla", local de paragem de indivíduos pouco receitados pela
sociedade em geral. Desde os tarados aos sequestradores, tudo por lá parava,
como moscas a pousar em carne acabada de cortar, ou restos de lixo, ou esterco
ao ar livre. Mas o fundo, e ainda que mal dizendo do serviço e espaço da
lanchonete (já chamei piores nomes a espeluncas mais apresentáveis) eu
sentia-me bem ali, aspirando a ligeiramente superior aos restantes, se por ser
condutor de táxi, taxista de minha profissão? Não. Acho que era mais pelo
simples facto de feitas as contas não ser mau diabo, não pactuar com o tráfico,
não andar atrás de criancinhas (sempre preferi as mães), não alinhar em
esquemas que trouxessem mal ao mundo, e apenas me importar fazer o meu
trabalho. Se já chulei clientes? Se já cobrei o dobro a gringos? Se já fiz
desvios sem sentido algum para ganhar mais uns trocos? Quem não o faz ou o fez?
O inferno queima o quanto mais tu quiseres que ele queime e sempre que se
arranja um pequeno bafo de ar fresco neste galinheiro onde quem não pica é
picado, quem não empurra é pisado, quem não puxa não tem, só é burro quem não o
inala. Desde que o Club Deportivo ganhasse para o campeonato por mim estava
tudo bem.
Comi um burrito e um taco e bebi
um shot de tequila, tiro no estômago fraco e débil que tenho. Fumei uma valente
cigarrada, tossi várias vezes depois de inalar aquele veneno que todos os dias
me vendiam, sempre sem brinde, mas nunca melhor. Era isto, dia após dia, e
enquanto assim fosse, nunca pior. Antes mal e vivo, que fodido e morto. Já
dizia um tio meu que entretanto morreu, bem fodido.
Guadalajara era assim, como em
qualquer parte do México - uma luta constante, um fosso entre o bom e o mau, e
quando se vivia no mau, no negro, na outra face, qualquer merda era boa para um
hombre se distrair, arejar a cabeça, encontrar um sinónimo de felicidade no
mais sujo e violento conto infantil. Meia pinga de álcool ou algo semelhante
adornado de chilli com carne arrotado com sabor a têto.
...
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
KEEP ON ROCKIN!
Não tenho conseguido parar de esboçar sorrisos, daqueles de desarme, quando o que vislumbro é tão incompreensível que ultrapassa em excesso a bitola do considerável, do apropriado,do "natural", do dito normal. Mas ya, da normalidade já não há que esperar nada.
É mesmo aquele engolir em seco, aquele burburinho do coração, a dita ansiedade, garganta seca, olhos esbugalhados, maçãs do rosto franzidas.
É como a vergonha alheia, até parece mentira.
Aquele "foda-se" baixinho.
É mesmo aquele engolir em seco, aquele burburinho do coração, a dita ansiedade, garganta seca, olhos esbugalhados, maçãs do rosto franzidas.
É como a vergonha alheia, até parece mentira.
Aquele "foda-se" baixinho.
Como diria o Greg Graffin, somos personagens de estórias mais estranhas que a ficção, num enredo cheio de horizontes longínquos polvilhados por "DTs" seats Ibiza dolce gabanna férias nas caraíbas golos superbocks bacalhau auto-estradas ppp´s estádios expos cabazes família, nóbeis,FMIs, segredos e pesos pesados, descritos por escritores de visão deturpada que navegam águas calmas, durante noites de luar, batendo teclas sem consequência, cosendo as linhas de contos e paus bafejados pelos ventos bávaros, enquanto bebem Don perignon e puxam uns bafos de charuto porque a purple haze foi roubada por um corsário das terras-baixas. O convés esse, segue viagem vazio, não apenas de mercadoria ou de especiarias e tesouros de além-mar nessas águas internacionais e globalizadas, leve que nem um passarinho inocentemente ludibriado com a falsa primavera dos primeiros dias de janeiro, com um tremendo nulo de ideais e valores, numa puta de uma Náu desiquilbrada, a pender para um dos lados, de velas-fechadas e sem vivacidade, que a cada milha naútica que sofregamente percorre, se afunda mais uns centimetros na austeridade das marés.
Mas o melhor desta Nau, são as matinés. Durante as tardes, em alto alto mar, é projectada na vela esquinada e dobrada, todo o corre-corre de aeródromos, offshores, sacos azuis, freeports, sucatas, licenciaturas, escutas, negócios da merda, merda de negócios, desde os mais preguiçosos até aos piegas que circulam, por aí, em Clios.
A bandeira essa, vai batendo contra o vento, com o vermelho trocado pelo verde e as esferas de cabeça para baixo.
A bandeira essa, vai batendo contra o vento, com o vermelho trocado pelo verde e as esferas de cabeça para baixo.
E essa comédia de cariz trágico, com um enorme teor de ficção redigido pelos melhores dos melhores dos romancistas da nossa Nação, vivos e mortos, os de hoje e os de ontem, vai se projectando nos blocos informativos das manhãs das tardes e serões e a impotência é tanta que e recordam os tempos de pequeno em que me assustava com a televisão, com os vilões e os extraterrestes, com os feios porcos e maus e a minha Mãe pegava em mim, fazia umas festinhas na cabeça e dizia "não fiques triste, é só um filme".
Neil Young - Rockin' In The Free World
There's colors on the street
Red, white and blue
People shufflin' their feet
People sleepin' in their shoes
But there's a warnin' sign on the road ahead
There's a lot of people sayin' we'd be better off dead
Don't feel like Satan, but I am to them
So I try to forget it, any way I can.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
I see a woman in the night
With a baby in her hand
Under an old street light
Near a garbage can
Now she puts the kid away, and she's gone to get a hit
She hates her life, and what she's done to it
There's one more kid that will never go to school
Never get to fall in love, never get to be cool.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
We got a thousand points of light
For the homeless man
We got a kinder, gentler,
Machine gun hand
We got department stores and toilet paper
Got styrofoam boxes for the ozone layer
Got a man of the people, says keep hope alive
Got fuel to burn, got roads to drive.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
Red, white and blue
People shufflin' their feet
People sleepin' in their shoes
But there's a warnin' sign on the road ahead
There's a lot of people sayin' we'd be better off dead
Don't feel like Satan, but I am to them
So I try to forget it, any way I can.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
I see a woman in the night
With a baby in her hand
Under an old street light
Near a garbage can
Now she puts the kid away, and she's gone to get a hit
She hates her life, and what she's done to it
There's one more kid that will never go to school
Never get to fall in love, never get to be cool.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
We got a thousand points of light
For the homeless man
We got a kinder, gentler,
Machine gun hand
We got department stores and toilet paper
Got styrofoam boxes for the ozone layer
Got a man of the people, says keep hope alive
Got fuel to burn, got roads to drive.
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world
Keep on rockin' in the free world,
Keep on rockin' in the free world.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
EM CANELAS HÁ UM TANQUE
E para lá chegar é preciso guiar como quem guia o mesmo tempo de quem vai para o Porto, pelas curvas do território, sempre a subir, passando as termas, virando na torre, ao passar da curva do penedo, com um farol avariado e outro a funcionar, vamos correndo o asfalto como se de dia de tratasse, não fossem já estes vinte e quatro anos pautados por viagens idênticas, muito mais que só no Natal e na Pascoa, sempre sempre que há vontade de cheirar o eucalipto e tomar um sumol no café central.
Depois de estacionado, deixam-se as tralhas pela casa, distribuem-se beijos e abraços de meia noite, o guardião do espaço escuro chegara, e com ele veio também a vontade de despertar. No café central, há sempre mais um café para ser tirado, nem que o chão esteja já todo limpo e as cadeiras todas arrumadas e a maquina de tabaco desligada e os neóns apagados.
Num desses dias encontrei o Tiago, e foi bom conversar sobre os verões de Canelas, dos jogos da bola no pelado do Canelas Futebol Clube, das idas à fruta, das corridas pelos montes abaixo, pelas jogatanas de mastersystem e pelos banhos no tanque. Foi porreiro lembrar o acidente, talvez noventa e quatro, noventa e cinco, em contra mão, estrada fora em direcção à chapa branca do Ford Escort que não vimos a desfazer a curva na mão dele.
E nestas noites de retiro, liga-se a televisão digital terrestre, deixando os documentários da dois soar pela sala a cheirar a fumo da lareira apagada, e de computador ligado, aprecia-se o silêncio lá de fora, quebrado de quando em vez pelos carros e motas lá da terra.
É reconfortante saber que podemos sempre entrar no portal do tempo e ir até Canelas, comer um arroz malandro e ficar com os dentes entranhados de fios de frango estufado.
Deftones - Beauty School
Depois de estacionado, deixam-se as tralhas pela casa, distribuem-se beijos e abraços de meia noite, o guardião do espaço escuro chegara, e com ele veio também a vontade de despertar. No café central, há sempre mais um café para ser tirado, nem que o chão esteja já todo limpo e as cadeiras todas arrumadas e a maquina de tabaco desligada e os neóns apagados.
Num desses dias encontrei o Tiago, e foi bom conversar sobre os verões de Canelas, dos jogos da bola no pelado do Canelas Futebol Clube, das idas à fruta, das corridas pelos montes abaixo, pelas jogatanas de mastersystem e pelos banhos no tanque. Foi porreiro lembrar o acidente, talvez noventa e quatro, noventa e cinco, em contra mão, estrada fora em direcção à chapa branca do Ford Escort que não vimos a desfazer a curva na mão dele.
E nestas noites de retiro, liga-se a televisão digital terrestre, deixando os documentários da dois soar pela sala a cheirar a fumo da lareira apagada, e de computador ligado, aprecia-se o silêncio lá de fora, quebrado de quando em vez pelos carros e motas lá da terra.
É reconfortante saber que podemos sempre entrar no portal do tempo e ir até Canelas, comer um arroz malandro e ficar com os dentes entranhados de fios de frango estufado.
Deftones - Beauty School
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
NOW WE CAN WALK
Podes ir lá bem longe,
podes até ir bem ali ao lado, aqui bem perto, longe de tudo e perto do que é teu.
Podes até nem sair do sítio, permanecer no lugar, deixar sempre tudo passar.
Guiar no lugar do pendura, pendurar-te no lugar do motorista, ver o tempo rolar, esperar pelas palavras certas.
Mas sem dúvida, que se não bater no núcleo duro, não arrepiar caminho ou criar mossa na espinha, não será certamente qualquer coisa digna disso mesmo. Qualquer coisa.
Talvez amanhã, talvez amanhã, seja frança espanha tudo, mas por agora, é canelas, é vila gualdina, é bustelo sessions, é luzim sessions também, é café paiol, é EP, é minis a cinquenta cêntimos, é brincar aos arquitectos, é acordar tarde e deitar tarde, é andar com a barba e o cabelo por cortar porque o Costa fecha ao meio dia, é fazer de conta que já somos adultos e é cem por cento ao contrário nos cem por cento que tens sempre como certos por muito incerto que todas as verdades absolutas têm por norma parecerem ser.
E parte de tudo isto, é teu também. Já lá vão oito anos, desde 2004, dezassete de julho salvo erro, que tiraste bilhete, e ainda assim, vou-te vendo aqui e ali, num ou outro acto, numa ou outra conversa, esse "não entres em paranoias", meu, fazes cá falta de vez em quando, para podermos comer sandes de presunto lá na varanda de casa, contigo e com a Lena antes que o Berto chegue a casa, mesmo quando os palitos são apanhados à mão sem que a ASAE dê conta. Ainda estou à espera daquela mega jantarada e ainda me deves sessenta cêntimos daquele perna-de-pau. Sa foda.
Um forte abraço, onde quer que estejas, demorei a escrever-te, mas bem, sei que o Alfa e Omega têm internet sem fios, por isso, ficas já a saber, que nestes últimos oito anos todas essas lições serviram para ir à Holanda ver as planicies e os canais, ir a Coura, ouvir Nirvana e aproveitar da melhor forma.
É tudo menos Banal.
R.O. - Now we can walk
every breathe we take
like it was the last one
every sip we take
we could drink the ocean
..
a million miles away, a billion stars a day
sábado, 30 de junho de 2012
O FRÁGIL
O
céu estava limpo.
Sentia
a textura do alcatrão a percorrer a borracha mole dos pneus da bicicleta. O
vento vinha ao meu encontro, trespassando-me; estava parado, mas eu movia-me
contra ele. O sol estava a pique, os pássaros voavam em bando, as pessoas
passeavam sobre a rotina maquiavélica que tomava conta do quotidiano. Planava
harmonia: dava vontade de fechar as pálpebras, puxar o ar bem lá dentro, encher
o peito e deixar soar notas bem altas de êxtase e de alegria - abrir os braços
e encaixar na dinâmica brisa.
Por
momentos desviei o olhar para focar melhor o balão vermelho que se soltara da
mão de uma criança. Depois travei.
Agora
estou sentado numa das muitas cadeiras da esplanada que envolve o pequeno lago
dos patos. Os patos parecem-me distantes, flutuam numa dança ainda mais
desastrosa e tacanha que a habitual. E sinceramente não consigo perceber o seu
número - tem segundos em que conto seis, minutos nos quais me parecem dezenas. Procuro
nos bolsos uma réstia do pão do pequeno-almoço para lhes atirar mas apenas
meia-dúzia de moedas me acompanham.
Mas
não é isso que aqui faço sentado, sobre a sombra, à espera do meu sumo natural
de laranja. Para dizer a verdade, não recordo mais o porquê de me encontrar
aqui sentado. Os sons das pessoas que à minha volta deambulam parecem-me
murmúrios de um tempo distante, uma confusão que não compreendo porquê, não
pertence a este lugar. A ligeira impressão de estar em dois lugares em
simultâneo, num contexto cruzado. A imagem transmite-me algo que o ambiente que
me envolve não traduz. O sumo nunca mais vinha e eram horas de ir, não me
recordo da transparência pálida do relógio, mas sabia que já havia demasiado
tempo que estava sentado a assimilar as dinâmicas que à minha volta se sucediam
em catarata. Por instantes reparei que os gestos assumiam velocidades
antagónicas, como se para uma quantidade de energia aplicada outra equidistante
e antitética da primeira fosse a
resposta dada.
Levantei-me,
comecei a caminhar sem pressa nem rumo. Encontrei-me sozinho no meio de uma
dessas praças da cidade, com um cavalo de ferro montado por um ilustre qualquer
no seu centro, a sua difusa sombra desenhada no granito rijo do pavimento.
Julgara eu que o céu estava limpo e sem nuvens, mas a luz parecia começar a
escassear, um tom cinza varria o todo.
Quando
dei por mim estava ofegante, a corrida massacrava o asfalto, as pernas
martelavam que nem pistões para cima e para baixo, e eu continuava a correr,
desalmadamente perdido num vazio que me consumia, agora e sempre, dia sobre
dia, hora após hora, no negro da noite ou na luz fosca dos dias. Os poros
dilatavam e expulsavam um ácido suor, a camisa colava no peito, o peito colava
no coração acelerado e descompassado, os meus olhos semicerravam para melhor
ver ao longe mas continuava sem compreender além do que via realmente e pior do
que isso, não atingia o porquê de tamanho sprint.
Mas sabia que esse era o caminho, que tinha de continuar a correr, que não
havia outra saída senão aquela.
Um
intenso ruído manifestava-se atrás de mim. Olhei sobre o meu ombro direito,
entrei num estado de pânico ainda mais avassalador e vertiginoso. Não conseguia
contar quantos compunham a massa disforme e caótica que se movia na minha
direcção. Era tudo demasiado real, numa luta que travava comigo mesmo sem eu
próprio saber. Atropelavam-se, escalando uns por cima dos outros, outros por
baixo de alguns, a maioria correndo como loucos, arrastando em si uma força que
se multiplicava exponencialmente a cada metro percorrido. Merda! A dor de burro
estava a tomar conta da zona abdominal direita, era sufocado pelo ar que me
enchia os pulmões, mas seria ar ou qualquer outra coisa? Conveniente. Empatava-me
a respiração, aniquilava o meu poder de decisão.
Estava
finalmente perdido numa ruela calcetada e que afunilava em direcção a uma enorme
escadaria em duros blocos de granito e da qual vislumbrava uma parede azul
ciano, bem lá no fundo, ainda distante de mim. Galguei as escadas, uma a uma,
duas a duas, interessa pouco saber como, mas parecia-me mais uma escada
rolante, rolando em sentido contrário ao meu. À medida que ia tentando manter a
velocidade, sentia que já não mais sentia as pernas que me guiavam, estava
trôpego, adormecido no meu mais ínfimo interior, tentava agarrar o corrimão das
escadas que escalava mas falhava sempre, e sempre, sempre me desequilibrava
mais um pouco.
E
eles continuavam a correr atrás de mim, e já não conseguia mais contar nem uma
só cabeça que a compunha - era um conjunto heterogéneo a polvilhar, difuso, um
borbulhar de carnes e intenções, racional mas ao mesmo tempo grotesco, e o pior
é que já preenchia tudo o que havia ficado para trás, causando um desespero que
me apertava não só contra a corrida que me levava ao plano azul final, como
também espremia o meu interior asfixiado, num constante martelar ruidoso que
consumia bem lá dentro, no fundo de mim, no mais vasto e sentido medo.
E
corri. Corri como se o amanhã não fosse uma certeza, mas algo pelo qual tinha
de lutar naquele preciso momento, momento que já me esquecera qual era, qual o
seu sentido, salvação ou desgraça, vitória regada a lama e sobressaltos, derrota
recalcada pelos milhentos pés que me seguiam sem desarmar.
A
cada passo que dava, mais me afundava nos paralelos escorregadios. A chuva
começou a cair e juntamente com o suor que me escorria na testa e que me turvava
a visão, repuxos lacrimais fugiam da íris, a saliva jorrava e relançava-se no
ar pela minha boca entreaberta, mas de onde não saía uma única palavra. Era
tempo de correr, de me salvar. Porquê? Não me recordo. Mas sempre gostei de
correr, sempre que roubei um apalpão a uma miúda qualquer lá da escola, sempre
que tentei correr até à linha para cruzar para golo, sempre que me acordei mais
tarde para apanhar o autocarro ou sempre que me vi perdido no meio de meia
dúzia de pequenos delinquentes que me queriam levar os trocos e o telemóvel.
Não era este o caso agora, mas através do senso comum e do mágico poder da
analogia, penso estar em condições de dizer que esta era uma bela altura para
correr.
Uma
imagem sobrepôs-se à estreita rua, um baloiço repousava num mínimo jardim, tão
mínimo que parecia não ter espaço para o gesto prolongado e suave que o baloiço
tomava. Foram instantes apenas, incontáveis como tudo o resto, tão depressa
vieram como foram.
E o
azul era cada vez mais intenso, os murmúrios e berros e ruídos e caos lançados
sobre mim, vindos de trás, já quase roçavam no meu ouvido, pareciam até
tocar-me nas costas, desviarem-me as pernas. A camisa era já um trapo que
colado a mim manifestava e simbolizava ainda mais o desespero de uma fuga não
anunciada e na qual me vi sem assim o prever. Queria-me lembrar de alguém, de
uma imagem, de um rosto, de uma palavra, mas só faziam eco as notas industriais
entrelaçadas em pianos e sons do fundo do túnel a ressoarem nas paredes do meu
crânio, a partirem cada pedaço de textura encefálica, desespero de um grito que
teimava em não sair. Havia passos que levavam metros, outros pareciam apenas
superar meros centímetros, um vai e vem descompassado e irregular, uma espécie
de cavalgada em terreno perfurado sobre uma incessante carga de água que varria
o chão e deixava no ar o cheiro a terra molhada.
Um
bombo que me perfurava, um ritmo louco que me mantinha numa dramática e furiosa
fuga, e todos eles mais próximos, tal qual o fim da estreita e claustrofóbica
rua que espezinhava, e com esta, o muro azul ciano que agora, com a curta
distancia que nos separava, se apresentava sobre o tom verde água, estando eu
sobre a água que caia sem dó, a um ritmo amplificado pelo intenso palpitar de
tudo o que me envolvia.
Uma
nova imagem se abateu sobre mim. Um miúdo caminhava pelo passeio fora com um
gelado na mão e à semelhança do que nesse momento se passava, também o miúdo
não conseguia pronunciar qualquer palavra perceptível. Ao andar, uma perna
atrapalhou a outra e na ânsia de agarrar o gelado, a testa foi de encontro ao
cimento em esquadrilha do passeio.
Mas
eu ia salvar-me, trepar o muro, ganhar tempo, escapar de um tsunami de gentes que teimavam em não me
largar e que a centímetros de mim, numa infernal e estridente parafernália de
sons e ruídos, me despedaçavam aos poucos, retirando-me o pouco equilíbrio que
me restava. Vertiginoso escape de sentimentos e adrenalina, já não ouvia mais a
minha silenciosa respiração, o ambiente era demasiado alto, numa escala anormal
e sem proporção aparente.
Escorreguei
finalmente, e ao contrário do que a minha mais infinita vontade desejava,
réstia de esperança encharcada em sangue, suor e lágrimas, o sentido descendente
contrariou o ascendente e o meu corpo projectou-se na direcção do verde-água do
muro. A rugosidade da pedra pintada fixou-se em mim, e a minha retina reteve-se,
bem aberta, no encontro entre o meu crânio e a barreira que a si se empunha,
esmigalhando em pedaços geométricos que em nada se assemelhavam à clássica
massa disforme e de cor rosa que julgamos compor o cérebro quando uma situação
deste género acontece.
O ar
entrou de rompante, preencheu-me, abri uma segunda vez os olhos focando o
infinito.
Uma
claridade imensa me suprimiu num cruzamento franco entre o melhor orgasmo e o
espasmo do vómito que se acumula e anseia sair, possuindo-me assim por completo,
num arrepiado esgar da espinal medula que me elevou no ar, os cateteres rasgaram
os braços e esse emaranhado de fios transparentes e avermelhados, como cabelos,
envolveram-me no seio do tecido branco que me adornava. O vermelho pontilhou o
algodão, pintas e mais pintas de uma cor forte e viva, era aliás, tudo
surpreendentemente real e intenso, ainda que desfocado e sem profundidade.
A
espuma percorria-me o canto da boca, deslizando sobre a vasta barba seca e áspera
sobre a qual uma sonda repousava. O ar era puro demais: fresco como o gelo,
cortante e redentor.
Estava
sozinho e fechado num espaço esverdeado e baço, num vácuo no qual eu sugava o
seu interminável oxigénio e as pétalas secas de um vaso repousado na pequena
mesa ao meu lado assistiam impávidas e serenas, ao meu alucinante renascimento.
Um Conto de Ivan Coelho
para um concurso,
algures em 2011.
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