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domingo, 23 de maio de 2010

LOST IN THE HEADLIGHTS











Alguns retratos. Chegou ao fim, epoca de rescaldo.

Ao Charlie pelo irmão que foi.
Á Inês pela paciencia, e pela irma que tambem foi.
Ao Jelmer pelas conversas e pactos.
Á Paloma pela Mira na Moderna.
Á Natalia pela amizade e companheirismo.
Á Cristina pelo sorriso de miuda e pela inocencia infantil.
Á Helena por me fazer lembrar a minha tia e pela descontração.
Ao Simon pela responsabilidade e educação.

sábado, 22 de maio de 2010

A DELICATE SENSE OF BALANCE


A musica roda alta no velhinho Sony, riscado e com autocolantes, do Sonic, da Zero, Lord ou da Skate of Mind, skateshop londrina onde me aventurei em dois mil e dois, e também parece que foi ontem.


Os carros continuam a circular pela direita, os semaforos já funcionam, as leis da fisica também parecem identicas ás que deixei em fevereiro por cá. O vento sopra, o frio aperta, o cinza do céu lembra-me a holanda. O abraço aqueceu, um corpo, uma presença fisica que aparenta distanciamento, alheio ás luzes e cheiros antigos mas novos. Fala-se Português.



Acordo perturbado, incomodado com algo. A rotina?
Não, ainda não a tenho. O telemóvel continua desligado, continuo a usar o velho/novo tmn que tinha cá para casa, ligo a quem me apetece e só deixo que me ligue quem me apeteça tambem. Parece-me justo, alias, deveria ser sempre assim.

A janela está aberta, os estores e precianas também, o copo de água na mesinha de cabeceira, a roupa da cama desalinhada e ao monte. O quarto continua virado do avesso, espaço a mais, tralha a mais que não preciso, nunca precisei mas que agora faz ainda menos sentido. As paredes continuam tatuadas, continuam com as marcas do tempo que a minha mãe quer apagar, limpar o quartinho do menino, pintar de novo para parecer novo. Não, esquece isso mãe Helena, deixa para lá os lineups, os cartazes e as fotos de guerra, o posteres de bandas e a juventude perdida que ela não vai voltar, mas desaparecer assim, sem dó nem piedade, como quem muda uma camisa ou se esquece de onde vem e o que o moldou, não é vida, será prostituição!

Desço as escadas, abro o frigorifico, que riqueza, o luxo de outrora. Um belo leite com café, pao com manteiga mimosa, a vista, o acordar com a D. Fernanda a dizer que está orada de orada, que a filha anda aflita com o marido da raça filha da puta, e que o gonçalo já anda e diz Nuno, sim, aquele que lhe ofereceu um TUCTUC amarelo que veio da india para enfeitar a prateleira do quarto mas que pronto, afinal tinha-me esquecido que era para o Gonçalo. Erro meu , claro.

Vou até á sala, ligo a televisão, faço um zapping descontrolado, mudo e mudo e mudo, e não muda nada. Continua tudo igual. O goucha continua viadinho como sempre, a colega dele continua histérica, o Jorge Gabriel continua a ver se come a Sonia Araujo e o Hermano José parece que já tem programa novo. O Unas ainda continua a fazer aquele humor apurado, tão apurado que nem ele se lembra do proposito do programa, mas também nao interessa, é o Unas. As noticias da TVI continuam o terror de sempre, e os cenários tambem, o Marcelo continua a olhar pela vida de todos menos pela dele, e parece-me que o queiros ou vai ser Heroi nacional, ou o Camelo que não se chamava Areias, simplesmente Carlos de seu primeiro nome. Mas devem faltar uma serie de coisas que mudaram e eu é que ainda não reparei nelas. Acho que vou-me embora sem reparar nelas, e provavelmente volto e continuo a não notar diferença, porque será?!

Alias, parece-me que nunca sai daqui, que um ano são dois dias e que duas semanas não passam de umas horas. Sentido estranho este do tempo.

O tempo que me leva a pensar que realmente lá não estava assim tão mal, apesar de não estar assim tão bem também. Não tinha telemóvel, ainda que só para as chamadas que desejo, nem cama, ainda que grande demais, ou quarto que tem ar respirável mas não vislumbro as estrelas.
Merda, tempo não voltes, porque se voltasses também nada seria igual nem saberia ao mesmo.
Acho que mais vale olhar para a frente, encarar o passado e marca-lo na pele, ou no coração, bem lá no fundo do peito, sorrir, deixar para trás a magoa ou a tristeza do que foi e não volta mais, pegar na broa e no presunto, comer umas sardinhas de garrafão com a familia e amigos, jogar as bilharadas no taco, beber umas minis , aproveitar o sol e o ar mais limpo de cá, estranhar a falta de ruido, os condutores educados que não buzinam na cidade, o trafico que trava nos vermelhos, ou os bois que não dão prioridade nas rotundas, as vacas que por cá continuam, mas mais impressionante que isso, aproveitar o facto de tudo realmente não sair do seu lugar, pelo bem ou pelo mal, com ou sem pó, as real as it gets.




Ninguem iria compreender.

Seria dificil de explicar, e sinceramente, aqui entre nós, nunca houve uma intenção de o fazer.
O que fora vivido, guardado na memória, quase como uma reliquia, algo intemporal que talvez nunca tenha acontecido.
Hoje, a pressão talvez seja mais forte, provavelmente se as coisas tivessem sido diferentes, se a aterragem tivesse corrido bem, se todas as forças opressoras não o tivessem encostado á parede, se os gritos interiores tivessem sido suficientes para apaziguar o ruído ensurdecedor do silêncio.
O refugio era procurado, ansiado, em todo e qualquer lado que não cheirasse a casa, depois da saudade morrer, da sede e da fome serem saciados, de tudo o que outrora fez falta não fazer mais, e pior que isso, ter perdido o sentido.
O problema é o lapso, temporal ou de memória, ninguém o saberá dizer, aquele que recoloca as coisas no devido lugar, como uma mulher-a-dias que limpa o pó das prateleiras e volta a organizar metodicamente as peças do puzzle em forma de cacos de viagens ou retratos de família ou manuscritos antigos e modernos que vão ritmando as paredes lá de casa. Ao por e repor, esse mesmo gesto, ainda que por segundos, horas, dias ou meses, em casos mais radicais referimos anos ou vidas como medidas de tempo, significa um recomeço instantâneo, como se do mesmo sitio aqueles artefactos não tivessem saído.




esta foi a musica dos Pelican, que me acompanhou durante toda uma India de descobertas, pessoais e transmissiveis, marcantes e que talvez só me aperceba da gravidade da situação quando me aperceber que é impossivel regressar á ilha.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O EXERCICIO

foi o de voltar a delhi nos ultimos dias da aventura, ao mesmo lugar onde tudo começou, depois da espera no aeroporto, do truque do taxista, do desconhecido se abater sobre nós.
A rua nao parecia nojenta, os esgotos pareciam riachos, as vacas apareceram com a naturalidade que os cães aparecem em Portugal, os cheiros eram familiares, o incenso misturado com os escrementos animais, os sacos de lixo rompidos ou simplesmente o lixo sem sacos a povoarem a lama que por vezes se encontrava coberta por uma timida camada de alcatrão.

Os lençois pareciam lavado, dormi de boca aberta e a babar-me, espalhado na cama como o Songoku o bem faria, nao ressonei, mas dormi até a temperatura o permitir, até o sol me acordar de novo, até me lembrar que o regresso estava para breve e que para breve tudo iria desaparecer, como se nunca tivesse acontecido.

Os ruidos lá distantes.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O FRANCIS CORREU EM KATHMANDU


Sai ao final do dia do Florid Hotel, ia com o charles, paramos para comprar umas bolachas de coco, fruto que cai da arvore nao fruto que todos os dias damos, e continuamos pelo Thamel a ver as lojas a reabrirem. Eram seis horas, depois dos motins do dia, a vida ia-se retomar por umas escassas duas horas. O meu alvo era comprar um postal de Kathmandu que tava prometido para o gajo do core la' da terra e o the Tesseract do Alex Garland. Li o The Coma em algumas horas no dia anterior, sou adepto dos filmes que ele fez com o Danny Boyle e queria ler a outra masterpiece do mestre. Fui saltando de loja de livros em loja de livros.

A rua estava movimentada, os botecos casa sim casa sim casa nao, estavam abertos, o artesanato espalhado nas ruas, as roupas penduradas nas portas e portoes de ferro, os mapas e bones e chapeus e chas das indias pontilhavam a ruela.

ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM ZUM

De repente comecaram-se a ouvir berros, cantigos, barafunda. Os lojistas comecaram a recear desacatos, vidros partidos, agressoes, viloencia gratuita a quem nao obedeceu a' paralizacao nacional. Todos os portoes de ferro comecaram a ser encerrados, as pessoas agitaram-se, o ar ficou pesado, eu olhei o final da ruela.

Ai vinham eles, a formarem cordoes humanos, a varrerem a rua, as pessoas recuavam, os turistas com passo rapido mantinham distancia, disparavam uns flashes timidos. Praguejei, deixei a maquina em casa e o filme nao tinha a sensibilidade indicada.
Gelei, voltei a mim, arrepiou-me a tripa, pensei de novo, acordei.
Ja so se viam luzes vermelhas, laranjas, fogo nas tochas dos tumultos, centenas de tochas corriam a rua, e eu primeiro a passo rapido, depois a jogging, depois a Francis Obliculo comecei a puxar pelas pernas. O Charlie concordou que realmente era melhor correr, nao esperar para ver no que dava. Como diria o Vitinho, amandar cos punhos e' uma coisa, biqueirada tambem, mas desde miudo me dizem que se brinco com o fogo mijo na cama a' noite, ou quem brinca com o fogo magoa-se, e nao ha herois.

Teve a sua piada.

Hoje vooei num 757 manhoso da Royal Nepalese Airlines porque o voo da Air India nao foi realizado devido ao motim, que reteu o carro que transportava a crew ate' ao aeroporto. So pensei para mim mesmo que se se tivessem levantado as quatro da manha para apanhar um taxi com o quatro piscas que nao parava em luzes e fazia curvas em contramao benzendo-se de cinco em cinco metros, talvez tivessem chegado a tempo.

Hoje foi o primeiro reencontro. Delhi.
Parece tudo normal, banal, pacato.
Ha tres meses atras deixou-me agarrado as cordas, quase arrumado ao primeiro Round.

Os Adeus ja comecaram, quase terminaram ate'.
Vao comecar os reencontros e com isso os abracos, os beijos e os murros no estomago.



Como estou que pareco um niendertal, vai um cromagnon.

Cro Mags - World Peace



Run Forrest Run poderia tambem ter sido o titulo deste conto.

sábado, 1 de maio de 2010

KATHMANDU - FESTA DO AVANTE









Pois e', nunca fui, nao me pareca que ha de ir, mas como ha coisas ironicas, ela veio at'e mim.
Ontem passei catorze horas na Serra, num Autobus, do Chitwan ate' Kathmandu, das 9:30 da manha ate as 00:30 da madrugada, e engoli muito mas muito gas toxico, muita gasolina e gasoleo e mistura no pulmao.

Enjoei e acho que ja nao gosto mais de cheirar gasolina quando vou as bombas da Cepsa la de penafiel.

O almoco foi feito nas paragens na estrada, nos botecos que se iam encontrado, e foi uma verdadeira prova de bolachas nepalis, desde o classico bombom chocolate ate a' bolacha de Coco ou mesmo a tracidiconal cracker. Nao tinha era cha' para acompanhar. Seria batota se nao dissesse que comi uns egg noodles num restaurante que foi a unica paragem oficial tirando as outras quinhentas nao oficiais ao longo do percurso de duzentos quilometros.

O problema foi a mobilizacao nacional para que no dia 1 todos os vermelhos do pais se juntassem na capital para derrubar o actual regime democratico, e problema foi tambem que muitos habitantes da capital que nao queriam nada com o assunto, com as revoltas e motins, cocktails molotovs e vidros partidos, tenham decidido abandonar o posto e criar um imenso Exodo para fora da cidade. Resumindo, filas interminaveis e sem grande solucao a vista quando as estradas sao piores que a pior nacional portuguesa. Sem exagero. Com mais curvas que a Jenna Jameson nos seus tempos de gloria.

Chegamos a uma cidade deserta, apagao geral e so os taxis ainda estavam acordados.
Crashamos na cama do Florid Hotel, e hoje de manha acordamos com uma cidade calma, a ver o que da'. Pequenos ajuntamentos de manha, tornaram-se grandes manifestacoes na parte da tarde.
Muita policia de choque, muitas bandeiras vermelhas.
A festa do Avante veio e espero eu que nao fique durante muito tempo, muito embora daqui a nada esteja a sair daqui, ainda nao vi por ca o Jeronimo de Sousa mas se o vir pago-lhe um caf'e. Os xutos de pontapes devem abrir amanha o cartaz do festival. Rolling Stones e Guns n Roses estao por confirmar.
A verdade 'e que ate agora tudo esta calmo, andam nas manifes mas sem violencia e so a cantar musicas de amor e liberdade, sixties style.

Tirando a romaria, a cidade e' fantastica, os templos sao geniais e cheios de vida, as pracas sao qualquer coisa de impressionante e estou encantado com Kathmandu. Bom demais, pena termos de pagar para entrar nas varias zonas turisticas da cidade.


Acho que indicado para este cenario, mais que uma musica de revolucao, seria:

Supertramp - Take the long way home

A VIAGEM NO ELEFANTE







De Pokhara segui para o Chitwan National Park.
No panfleto dizia : Viagem de Elefante, Bird Watching, Cannoying, etc etc etc e os Rinocerontes que matam turistas e leoes e leopardos e catatuas e esquilos e ursos e quem sabe dinossauros.
Nao tava muito entusiasmado, so a parte dos rinocerontes que matam turistas anualmente me fascinava, um pouco de aventura off the tourist shaite, mas pronto, era bla bla bla bla e muito bonito, e verde, e toda a gente que vai ao Nepal vai la' e a minha irma ja' la' foi e gostou muito e vais ver que vais adorar e espectaculo digo eu. Ok, desisti, disse que sim, e la fomos os tres Portugas, depois da despedida dos Holandas, os ultimos, e talvez o ultimo grupo deste segundo semestre a desmantelar-se. Lavou-se a roupa suja toda, disseram-se todas as bonitas palavras de despedida, os abracos da praxe, a lagrima nao apareceu mas o recado que tudo o que e' bom acaba depressa estava la. Adiante as lamechices, chegamos ao park, entramos no jipe Suzuki Samurai que tava bem mais partido que o do Pintado, e lembrei-me daquela noitada em Abragao a' beira rio a falar sobre a vida e a correr atras do padeiro que ja andava a distribuir pao pelas portas. Soube bem recordar.

O prato principal veio logo as quatro horas. Andar de elefante.
Nao, nao vou ao circo, nao defendo a exploracao animal, nao fiquei muito feliz por estar a ser carregado pelo pobre animal que mais nada fez na vida que aturar turistas brancos, gordos, de calcoes acima do joelho, binoculos ao peito e oculos da Oakley amarelos. Mas tambem acho que ha elefantes bem mais explorados, bem mais mal tratados e estourados que aqueles, e que no fundo, ja carregaram mil vezes o meu peso e dos meus amigos de sangue portugas. Vidas, dilemas aparte, la fui eu qual Subrho, qual Fritz a montar o Salomao que no final se tornou Solimao, pelas florestas do Nepal. Passamos o Rinoceronte, os outros duzentos estavam de folga e so um se dignou a aparecer para que a viagem nao fosse ainda mais frustrante e ediota, mesmo estilo turista europeu de primeira linha que compra os packs comerciais onde vai tirar a aventura a martelo, e de canivete e lanterna no bolso dos shortes.
Estava tudo muito bem ate que comecou a chover, e a chover, e a chover, e a chover, e a trovejar e a ventar. E pronto, foi o pe' demo'nio, o Deus ma livre, o apocalipse.
Nestes paises os cabos electricos andam por cima, nao por baixo, e como eu neste caso estava em cima e a andar por cima a uns escassos centimetros dos mesmos cabos que ja encabaram muito boa gente e muita parte do mundo, tive muito receio e diria mesmo que quase me caguei mais que o Elefante durante a longa viagem de trinta minutos, e pensei que se nao fosse um raio, uma arvore, um raminho, ou simplesmente o elefante tombar por cima de nos, podia ser um dos cabos que andavam a baloicar ao bom estilo de um salto a' corda que me ia torrar. Estou mais preto com o sol que apanhei, arriscava-me a ficar torrado.

Um banho brutal, ensopou tudo o que havia para ensopar e se a maquina fosse digital de certeza que nao a tinha a funcionar. Como ja nao tenho nada comigo de valor, so a maquina correu riscos e perigos de vida. Abandonei pois claro, nao tinha consulta as cinco, mas tinha de mudar de roupa ou entao ia passar a noite a Benuroes e familia. Falando em familia, a minha avo diria que iria apanhar uma Pneumonite.

Foi como aqueles dias de verao em que se monta a festa toda e depois vem a chuva e estraga tudo, ou mesmo de inverno outono ou primavera, porque estas coisas acontecem com frequencia e realmente, estragam a festa toda. Se era uma festa neste caso, nunca o saberei, ja comecava a ficar com calos no redondo e nao e' confortavel e nao me deixou de consciencia leve.

Dormi e esperei que o dia trouxesse o bus para Kathmandu, de seis horas.

KF - Vacation Spot

terça-feira, 27 de abril de 2010

TINTIN AU TIBET







Cheguei ao nepal depois de vinte e quatro horas de comboio, jeep manhoso e mini-bus com outros tantos artistas da bola que vieram para missoes bem mais hardcore que a minha como passeatas no campo ate' aos quatro mil e tal metros durante dez dias. Eu vim pra paisagem, respirar ar fresco depois de uma cidade tao intensa e pesada como Varanasi.
Varanasi e uma cidade onde ate o ar custa a entrar nos pulmoes, as pessoas andam todas pedradas, em busca dos deuses todos que largaram o pais a milhares de anos. Se Saramago diz que deus trabalhou seis dias e depois tirou ferias ate hoje, acho que estes trabalharam bem no enredo e depois cagaram de alto, literalmente. Ali tudo era estranho, estranhamente envolvente e surreal, cheio de animais, gente a dormir o dia todo nas ruas, quase todos a chutarem para a veia "o remedio divino", uma maneira bem leviana de ver a droga, com os templos cheios de junkies e com o ponto alto nos corpos queimados a' beira rio a uns miseros metros dos banhistas. Higiene pessoal nunca fez tao sentido quando se escovam dentes com os dedos dos outros, purificados pelo fogo divino e pelo tao ansiado nirvana alcancado em Banaras. Acho que nem o Kurt Cobain se lembrou desta se nao teria dito 'a Courtney que em vez de um balazio nos cornos o caminho seria uma bela queimada na India.

Para tras no meio disto tudo ficam as praias de Goa e a cidade dos morto-vivos...
Precisava de mais de uma hora aqui na internete mas so consigo ter tempo de responder a e-mails para familia e pouco mais, a rede e' cara e os teclados sao duros de martelar.

Do Nepal, mais concretamente das silhuetas negras que vi de montanhas e estradas interminaveis, estradas que nao tem buracos mas sim buracos que tem estradas e que sao feitas a oitenta ou noventa kmh sempre a bulir como se nao houvesse amanha, e pouco faltou para nao haver amanha, fosse estampado tipo sticker num TATA ou pela ribanceira abaixo sem pinheiros para matar e com muita silva e vegetacao alta e baixa para contar ate' mais proximo curso de agua por onde passamos.
Hoje remei no lago de Pokhara, comi um magnifico mixed fried rice que ate bocadinhos pequeninos de bife tinha e arranjei o bilhete para o parque natural algures por aqui que daqui a dias vou ver.

Amanha as cinco da manha comeco uma mini caminhada, para morcoes, pussys, amadores, rookies, chamem-lhe o que quiserem, mas nao tenho tempo, e quero ir ate kathmandu ver se encontro alguem que ja perdi pela viagem milhares de vezes e que a proximidade do regresso me teima em confrontar.

ser'a caso para dizer que ja ouco os escorpioes a sussurrarem ao meu ouvido.

Scorpions - Winds of Change

sábado, 24 de abril de 2010

GRANDOLA


Hoje, na cidade dos mortos, dos vivos que esperam pela morte, dos mortos-vivos de heroina e cocaina ejectada como reme'dio apaziguador e ligacao divina a Shiva, Ganesh ou Brahma, onde os corpos sao queimados e lancados ao rio onde os miudos nadam e tomam banho, lembrei-me de uma revolucao dos cravos que se celebra amanha, dis vinte cinco de abril, como o do estadio de la' da minha terra onde muitas vezes vi o meu clube a ganhar e a perder, as vezes (nao poucas) empatar, disse palavroes com o meu pai ao lado e ate o vi a' bofetada por motivos que nem lhe diziam respeito.

Sim, abri o youtube, deixei carregar a musica, ouvi o marchar e deixei-me levar pela letra. Um dos espanhois que esteve em Ahmedabad comigo, o Jaime, sabia a musica de cor, ja a tinhamos cantado, ja tinha achado piada ele saber uma musica como aquelas. Tinha a barba por fazer, gostava de ser comunista disse-me ele um dia, mas nao o era. As tantas anda enganado.

Volto ao tema, a' revolucao, aos cravos, ao dia vinte e cinco daquele Abril. Nao o vivi, nao vou falar do que nao vi, falo do que sinto por saber que hoje o pais e' livre, nao de muitos preconceitos e males, ou de muitas doencas mentais e de epoca, mas melhor assim, que axfixiado, que preso a um Deus, a' Patria e a' Familia. Acho que as geracoes perdidas que dai se seguiram, a que passou na heroina, a minha nas incertezas de um futuro letrado mas atras de um emprego para o qual nao nos qualificamos, ou mesmo as mais recentes que se tornaram mais virtuais e digitais que o proprio Kubrik com a odisseia no espaco, talvez ainda nao consigam compreender, tal como eu nunca hei de conseguir, o peso da opressao, o peso do controle, do cctv politico e da censura.

Gostava de poder ver agora a foto do meu avo a apoiar o Humberto Delgado na sua visita a Penafiel, pela qual lhe passaram demasiados desgostos.

Zeca Afonso . Grandola Vila Morena

sexta-feira, 23 de abril de 2010

SLUMDOLLAR




Vamos por partes.
Ja estou em Varanasi, para tras ficaram Mumbai e GOA. ?Uma busca rapida no google dira que sao tres sitios que tanto a ver uns com os outros como o Papa teria a ver com Jesus Cristo, mas isso sao outras guerras.

Bombaim e' uma cidade produto, uma imagem de centro de cidade estilo Europeu, fortemente Colonial, controlada, onde tudo respira em condicoes, o transito e' ordenado, nao ha arrumadores de carros, nao ha muito lixo no chao, ha glamour e bares ocidentais, restaurantes de luxo e mercedes a percorrerem o alcatrao. Se eu reler tudo isto, nao releio em nada disto a India que vi nos ultimos meses.
Mas Mumbai tem quarenta quilometros de extensao, quase o dobro da populacao de Portugal na Urbe, e mais de duzentos milhoes em outskirts. Mumbai e' uma maquina, Mumbai nao tem nativos, so emigrantes e migrantes, gente que faz de mumbai um sistema de reciclagem onde claro esta o mais fraco faz e limpa o sujo, o mais rico vive no condominio e passeia-se pelo centro ocidental.

Felizmente tive a oportunidade de ir a uma favela, a uma Slum. Foi provavelmente o mais intenso que provei aqui, depois de mais de setenta dias de India, provei o esgoto e o ar humido dos labirintos de Dharavi, a maior favela de Mumbai.

Dharavi seria uma cidade dentro de outras mil cidades, uma cidade com industria, com zona comunitaria e zona residencial. Com um milhao de habitantes concentrados numa area que nao seria maior que Canelas, a terra perdida no meio dos montes de Penafiel.
Dharavi dava milhares de historias. Possui uma industria fortemente DIY, na base da reciclagem de plasticos e producao de materias primas com base no lixo dos outros. Caso para dizer que a merda do Mundo e' Ouro por ca'. Literamente, porque se nao fosse literal nao produzia um montante de 6.000.000.000$ anuais que claro esta nao sao divididos pelos trabalhadores que trabalham catorze horas diarias num espaco de 9m2 e ai comem urinam e dormem. Ha outros peixes a mamarem o que nao e' deles.
Tudo e' feito em chapa, ou plstico, ou madeira, ou mdf, ou papel. Tudo ia cos porcos se o Lobo soprasse com mais forca.
Mas depois de ver tudo isto, com o nosso "guia" da favela a explicar o melhor que podia e a guiar-nos no meio do labirinto, chegamos ao prato principal.
Este deixou-me indisposto, parecia um dos muitos pratos com demasiado chilli, ou que realmente nao foram talhados para o meu estomago mas que tens de comer, porque como diriam la em casa, ha que comer de tudo. E se nao se come, come-se comida de urso. Melhor a primeira opcao.

Segui por um corredor de oitenta centimetros de largura, la ao fundo um homem tomava banho com um minimal raio de luz sobre ele, logo a seguir viro a' direita e vejo um corredor com cinquenta centimetros no maximo, mais de cem de extensao, sem luz, com os cabos de electricidade a uns belos dois metros de altura, o esgoto a passar-me pelos calcanhares, o ar abafado que nao corria, e a rua que nao se via. E tudo era assim, sem mais acabar ate chegar ao patio das traseiras, lixeira a ceu aberto, onde todos cagam com ar condicionado ou se preferem a casinha publica, partilham-na com mais mil pessoas diariamente.
Fui caminhando com a sensacao que era um sortudo, por ter mil vezes mais condicoes que todas estas pessoas, mas que sinceramente, pelos sorrisos dos miudos, pela postura e atitude, ali aprendia-se a viver o dia de hoje, sem grandes planos para o amanha e' certo, mas o hoje era bem vivido. Ainda que sem agua, sem comida e sem um tecto unico e estavel, mas era melhor que estar morto como diria o guia.

Na inha cabeca ecoava o Beggin in the Slums, Defeater. Fazia sentido ver os miudos a jogarem cricket com bolas de tenis, sem tenis nos pes, descalcos e rijos, sem dentes cariados, sem drogas e alcool porque quem brinca e trabalha nao se mete nisso diziam os locais, com os pneus carecas da bicicleta, a quererem saber nomes e paises, dizer um ola e dar um aperto de mao.
Sao oitos e oitentas, um girar, uma roda que nao para, que se alimenta de motivos como a reciclagem do mundo ocidental, do nosso lixo diario, do nosso consumismo, o traduz em miseros rupias, em camas de papel, alimentacoes frageis e vidas sem futuro, grao a grao, passo a passo, dente a dente...

Ser'a esta a India que todos querem ver no topo mundial, como pais desenvolvido? Nao consigo ver, mas provavelmente ninguem veria os Romanos no colapso, os Egipcios extintos, ou outras tantas civilizacoes que tiveram o seu apogeu e depois tombaram que nem penedos, rolantes.

A pergunta que se faz nao e' se na India, territorio, ja houveram apogeus civilizacionais. Houve as centenas, pela quantidade de patrimonio que aqui ha e muito por descobrir esta'.
O apogeu so chegou para alguns nesta India que se conhece como territorio unido mas que de unido tem muito pouco, e de coeso e coerente tambem, porque de norte a sul tudo muda, desde a paisagem a's pessoas, linguas e tradicoes.

Neste pais cabe tudo onde noutros continentes nao cabem nem a martelo, e nao falo so de espaco.

THE FALL OF TROY - introverting dimensions

sábado, 17 de abril de 2010

BOMBAIM!


Depois de viajar num caixote de chapa por umas doze horas, vindo das grutas budistas de AJANTA ( tambem la jantei um chicken biryani ), fiz duzentos metros num taxi manhoso at'e ao hotel YMCA, tomei um pequeno-almoco / almoco num cafe ocidental chamado MUNDEGAR, com uma omelete a' portuguesa, uma pasta italiana, uma soda americana, com os holandas a tomarem um vinho tinto frances fresco, e enquanto tudo isto se passava, rolava na jukebox Texas style uma banda britanica de seu nome RADIOHEAD, musica NO SURPRISES. Sera'?

Nos Portugueses, comecamos isto tudo.

BOM
BAIM!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

THE BEGINNING OF ALL THINGS TO END


Intro de KYI.

Este titulo seria apropriado para um qualquer trabalho de oficina de artes de decimo primeiro ano, com o purehatred e o mudvayneboy a colarem maxes cavaleras e coreys numa tela vertical, eu entretido com o Bush de moustache alemao e o pinto com a fome em Africa. Belos tempos, mesmo antes antecedidos pelo Valdemar, o "Banal", personagem que vivera' sempre na minha memoria, com a grande frase " podes-te tar a cagar para isto tudo, mas quando precisar que estejas a dar o litro tens de corresponder". Parece-me uma grande licao de vida, porque nao temos de estar sempre atentos ou sempre na terra ou sempre sentados a frente do ecra a carregar em teclas ou a dizer que sim e que nao ou a tirar missa de corpo presente num qualquer cubiculo de escritorio. Acho que o Valdemar vivia no Portugal a pensar que estava na India. So' Ganesh sabe.



Hoje e' o dia, chegou a hora, ja lavei a roupa toda, no tanque la de casa, com sabao azul a' porto, com ganas de limpar o possivel mas deixar as marcas desta India constantemente suja, e ja ta tudo seco, empacotado, empacotados tambems alguns quilos de roupa que nao devia ter vindo e que agora nao me compensa levar ate' ao fim, parece que ha coisas que se vao deixando e outras enviam-se pelo correio. Ja tenho as costas benzidas, nao fiz nenhum mal jeito desde que ca estou, parece-me que esta me vai aguentar ate' aos himalaias, e se nao aguentar, sais de frutos e cha', dieta rigorosa e a caravana continua.


Custa dizer o adeus, mas custava mais se nao o dissesse, e no final serem tudo numeros de telemovel e enderecos eletronicos e codigos postais indiferentes e meramente aleatorios, ditados pela vontade de alguns de verem o taj mahal, de outros de comerem chicken butter masala, de outros de enviarem postais para a familia e marcarem o passaporte, e de alguns, poucos, de mergulharem num mundo ao contrario, onde ate as leis da fisica parecem nao colar com frequencia.


Sem mais nada a crescentar a esta chamada de valor acrescentado, parto sem telemovel porque ate sem ele fiquei, t shirt colada a's costas com os quarenta e cinco la' de fora, estomago ainda vazio que penso preencher em alguns minutos, com saquinho as costas e o emepetres carregado de cantigas de amor e de raiva, e tambem outras de chillout tambem para a odisseia dos himalaias, com passagem pelas praias portuguesas de GOA, a caotica BOMBAIM e a mistica VARANASI.

Ate' 'as uvas!


SOULFLY - BACK TO THE PRIMITIVE

segunda-feira, 12 de abril de 2010

LOST AT SEA


Ainda ando atras das palavras,

para expressar, tentar transmitir ,se e' que e' preciso faze-lo, o quao complicado e angustiante e' lermos as ultimas paginas de um livro e sabermos quantas faltam para que acabe, um livro que te esta' a dar gosto ler, quem sabe ate' escrever. Ou por vezes deixaste que escrevessem por ti, com um olho fechado e outro aberto, ou a olhar para o lado como quem nao quer a coisa mas ciente do que se esta a passar.

Sim, e' complicado. As ultimas sao sempre complicadas, porque sao as ultimas, porque podem nao voltar mais e normalmente nao voltam, e porque representam o fechar de um capitulo, de uma etapa, por vezes de uma fase, ou no seu mais basico significado o fim. O fim que sempre chega, para todos e para todas as coisas, mais cedo ou mais tarde, suave ou agreste. Certinho direitinho.


No sabado foi um desses dias, e estes dias tem sido de ressaca, para ja' suave, com uma ligeira dor de cabeca, uma leve indisposicao. Os meses parecem anos, frequentemente pesam como tal, para o bom e para o mau, mas como tudo na vida, mais vale andar para poder contar, aprender para poder ensinar. Se recearmos tudo isto, estagnamos na apatia de um quotidiano calculado e metodicamente preparado. Ou entao nao ha contacto, sem trocas externas, sem sentimento. E porque tudo acaba, valera' a pena abrir o leque? Porque o final sempre aparece, sera' que ha um calculo matematico para a despedida? Para o derradeiro "ate' qualquer dia"?


O meu avo Quim Casinha, teimoso e pessimista, bom e duro homem de valores e dedicacao, de gancho, dente de ouro no faqueiro ja bastante perfurado mas que ainda trinca aqueles bifes da Zilda e aquele arroz que so ela sabe fazer, quando foi para o Brasil nos 60s, familia na mala e coracao no bolso, disse "Adeus Lisboa que nunca mais te volto a ver".

Por acaso, das outras dez vezes que la foi disse o mesmo . E se tudo correr bem, da proxima voltara' a dize-lo.

Gosto de dizer adeus e pensar que em pouco tempo ha reencontro, que as coisas voltarao a ser iguais e que todos aqueles com quem nos cruzamos, de algum modo fazem parte deste grande percurso. Parece-me inevitavel ir buscar as historias das aventuras, dos episodios em que ja me vi, com este e com aquele, com "um amigo" ou "um colega" ou um xerife que conheci quando fui ali. Talvez seja sempre nesses contos que estas personagens voltam a aparecer, porque nao pertencem mais a' vida real, ficaram la' atras na memoria, e quando um tipo volta a falar, a conversar, muito mudou, e esse conto deixa de fazer sentido. Pode ter a ver com o " nunca regresses aonde ja foste feliz".


A pergunta que se faz tambem 'e at'e que ponto, se da' , se entrega, se partilha, se mostra. Tenho o vicio do dialogo, da conversa pacata sobre tudo e sobre nada, sobre coisas que de si so' nao dariam artigo de jornal mas que em amena cavaqueira preenchem os seroes e as tardes, as viagens, as noitadas de copadas ou trabalho. Esse vicio mostra bastante, da' muitas cartas, transmite demais. Tenho o vicio de acreditar, de exprimir, de nao calcular muito o que digo e que faco na ocasiao. Acho que o Andr'e toma mais conta de mim que o Nuno. O Andre' que a familia ainda chama, a pensar que esta' a chamar o Nuno.


Se nao formos transparentes usamos uma mascara, nao deixamos passar a palavra, nem passar o esgar de dor ou alegria, a muralha protege, inibe a aproximacao, controla a situacao.


Tudo isto para chegar ao momento presente, de dizer Adeus, a' casa, 'as Vacas, aos meus vizinhos, colegas de sala, colegas de quarto, amigos e companheiros de quotidiano feito guerra.

Se nao tivesse tentado, hoje estaria mais pacificado, mais sereno, frio e calculista como se mais um final de festa se tratasse. Felizmente nunca fui um tipo de noite, e embora me pareca com um simio neste meu desajeito ao caminhar fisica e psicologicamente, nao sou o macaco adriano, rei da noite style ( viva essa intro de mata-ratos) e valorizo estes pequenos e futuramente nostalgicos momentos. Eu olho a' volta e toda a gente ta animada, ja' acabou, siga a marinha. Para mim e' amargo acabar, e' dificil e deixa-me desocupado, deixa-me a pensar que o tempo voa e que ta sempre a contar, a fugir. Estes tipos tao sempre ainda mais ausentes que eu, que sempre na Lua ainda me parece que me afecta muita coisa que se prende bem ao real.


Parece-me que toda esta falta de pensar, sobre o que e' mudar de vida, o que sao estes pequenos oasis que nos permitem viver mais em meses que em anos, e que criam ligacoes fodidas, porque nao ha mesmo palavra mais suave, e nestes momentos sermos suaves e' querermos mentir a no's mesmos numa boa onda mental. A malta anda perdida e' nessas ondas, talvez porque ao contrario de no's portugueses, que valorizamos a ausencia e temos uma palavra chamada " saudade" muitas vezes adornada por outra que se da' pelo nome de "nostalgia", para eles isto significou ou significa uma mota preta a brilhar ao sol. Eu interessa-me mais saber da estrada, que fiz e vou fazer, e de todas as paragens que marquei, todos os que conheci e que gostaria de poder reencontrar com o mesmo feeling com que nos encontramos ca', mente aberta e coracao no sitio.


Antes de zarpar, para Bombaim, Elora, Goa, Varanasi, Kathmandu, Dheli, Londres, Porto e Penafiel, em betao deixo marcado, que por muito que andes, se nao deres nada de ti, nada recebes.


E que realmente, se nao partires nunca chegaras.

A perceber o valor da intensidade.

O peso da saudade

Mas porque tambem vivemos no hoje, o poder do momento.



death threat - bury my heart

sexta-feira, 9 de abril de 2010

ROBOT ORCHESTRA











Quatro e vinte e tres, com sorte hoje durmo tres horas depois de tres dias de trabalho nem sempre no duro mas a tempo inteiro.

Nao, nao vim ca pela paisagem, arquitectura paisagista tambem nao, se e' que sei o que e' arquitectura ou algo que se possa parecer com essa coisa complicada e tao relativa e aberta a discussao. Cada vez mais me parece que a malta quer ser antropologa, historiadores, sociologos e psicologos, mas eu queria era desenhar, queria fazer o que me interessa, que e' fazer e nao falar.


Oito semanas, evidentemente que nao so de trabalho, e talvez so nestes ultimos dias tenha concretizado, se e' que concretizei alguma coisa, pelo menos cheguei a algum lado, a um porto de chegada que teimou em nao aparecer a muitos que o procuravam, talvez em demasia na diferenca, no olhar eximio de quem quer ver o pentelho, ou o pelo no nariz, ou a cera no ouvido, ou a marca de nascenca na iris da companheira.


Como diria o outro, nao sou de c'a, so' vim ver a bola. Alias, quando quero tambem sou ignorante e lorpa e me faco de burro, e nisto da arquitectura ha muita vez que temos de calar, ter paciencia e eu nisso falho bastante, tenho pouca. Adoro pensar, mas as vezes pensar demais sobre a emigracao das aves selvagens do sudueste africano ate' ao cume da montanha mais alta da Siberia nao me interessa no ambito projectual.


Fica aqui o sumo destas oito semanas, e se me perguntarem porque e' que e' branco, eu pergunto porque que teria de ser preto ou vermelho ou castanho ou em tijolo ou adobe ou mosaico ou noutra coisa qualquer porque as estacoes de comboio na India e na grande maioria dos lados, sao edificios frios, governamentais, desprovidos de qualquer gesto ou sentimento, feios que deus alivre. 'E branco porque me apeteceu que fosse branco, e nao me parece que o indiano que mora no meio da valeta, ou o que dorme sempre ao relento, ou o que nao tem onde cair morto se va importar de receber uma casa com os metros quadrados minimos ( que para no's europeus supera em quinhentos por cento o minimo deles) para que seja feliz e o cao tenha a casota no quintal, a mulher faca o thali vegetariano na cozinha, ele tenha o caixote na sala para ver o cricket, tenha uma retrete ventilada, um sitio para dormir no inverno e poder muda-la para o meio das couves com o calor do verao e mais importante 'e que o miudo brinque na rua sem tropecar no esgoto a ceu aberto.
Simples mas bem complexo. e' claro que em cada lugar do mundo se vive de maneira diferente apesar de haver necessidades basicas (e outras menos basicas) que contam para a escrita. Variaveis.

Fica aqui o meu primeiro post de trabalho que nao ficou acabado, ta e' a bom jeito holandes, apresentado, mas sem as setas do costume, os esquemas em ilustrator ou indesign e os materiais exoticos..

Big ups! para:
Charlie Rocks, sem ele a coisa era bem mais complicada. A estacao e a rampa foi desenhada pelos dois.
A Natalia voltou a relembrar-me como mexer no photoshop, isto de deixar a tecnologia para tras e viver num mundo analogico tem que se lhe diga, sem essa ajuda ja nao me lembraria como pimpar um modelo de sketchup manhoso!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

NO CABO DO MUNDO


Back in the days, era bem mais simples. Eu queria ser lixeiro, tu ainda nao querias ser bailarina.

O mundo vai girando, a malta vai crescendo, fica a saudade.

Naquela altura era o que dava, e era bom demais. No Cabo do Mundo, a quarenta quilometros de casa.

Ouviamos as estorias da mariazinha, da Torre da B(ab)ilo'nia quem la' vai nunca mais torna, do Touro Azul, da Cadelinha das contas de oiro e dos Meninos da Agua levada. A praia tinha uma agua que gelava, aprendiamos a nadar de barriga na areia, e de tarde sentavamos nos sofas verdes la' da casa da Olivia, refastelados com Dragon Ball e pao com tulicreme.


Hoje tas grande pa', cresceste, eu tambem, infelizmente.

Lembro-me bem das bofetadas que levei quando partiste o queixo a' minha custa, a saltar de cama para cama, viagem aerea interrompida... e desculpa-me se ainda te parto muitas vezes o queixo quando nao te defendo e me limito a ser duro contigo, e fazer contigo o que nao gosto que facam comigo, tirar-me os meus sonhos e dizerem-me que nao posso fazer o que me comprometi a fazer. Por acaso, ate' estou num momento desses, com um indiano, um holandes, duas espanholas e uma alema, trabalho de grupo infernal , sinking ship que teimo em nao largar.

Aqui passam tres horas das zero, por isso ja posso te dar os parabens. Provavelmente nao te consigo ligar hoje, ligo-te mal acordar, com o corvo da manha, ou o comboio a passar ao longe..

Sinto falta irma, de te esclarecer sobre assuntos que nem eu estou esclarecido, de te dizer que vai valer a pena sem saber muitas vezes se valera' a pena o esforco (embora queira acreditar que vale e que quem trabalha sempre alcanca), ou de tocar contigo Nirvana na garagem, com paus de vassoura ate' o xerife aparecer a resmungar a dizer que anda a criar uns filhos malucos.

Sinto falta desse sorriso que quero que nao percas, dessa miuda que espero que nao se torne adulta demasiadamente cedo, porque as responsabilidades tambem nos tiram estas coisas de sorrirmos quando nos apetece e de falarmos com aquele toque de alegria, digno de criancas, nao de adultos frios e distantes, desconectados, desligados do que e' bom. Aquele baloico e jardim, aquele R19 e a cassete do Bon Jovi que se ia ouvindo mesmo nos momentos complicados, dos gelados e dos tiros aos pratos, no meio do mato, no dia que era o mais feliz do ano...Era fixe ver o patrao a jogar 'a bola e a cair no chao como no's, ou a dona de casa a mandar vir comigo para ir apanhar pratos enquanto os chumbos ainda no ar andavam.. Para mim, isso ainda nao desapareceu, esta bem mais presente que o presente, e significa uma coisa bem maior. A uniao.


Gostava de voltar atras contigo, fazermos isto tudo de novo, mudava algumas coisas, e tentava ter sido mais presente e querer ter sabido mais do que soube, ajudar mais do que ajudei e defender-te mais, porque realmente tu mereces. Nao e' so' lirismo e paisagem. Nao e' so' falar e falar, tu realmente tens andado, imenso, muito mais do que eu andei quando tinha a tua idade. Com isso trazes a responsabilidade, de poderes falhar muito pouco, de responderes a toda a hora e de mesmo nas duvidas nao poderes dizer que nao sabes...


Miuda, fica rija como sempre, aguenta la essa barra que tao bem fazes que quando voltar vamos ate' ao taco e pagas-me o cafe' e a mini e a tosta mista!


Dezanove nao e'? Tas a ficar velhota NES.


Sights and Sounds - Pillars


It's starting and the pillars rise

Some weaker in the midst of constant grind

Some will fall or some might hide

Them come back in my life

Follow the storm and see

Cast a thorn between you and I

StayI can't stay

Riddle this one out with August songs

Handing them over

So all the other sounds could seem minimal

Hell, if it's not this it's coming somehting else

One after another as long as we allow

None of us the same but we're going one way

Lock out the rest that wanna take us

Embrace the essence that will take us soon

We're on our own again and the sanctuary's attainable

Embrace the essence that will take us soon

I'll take all day

Heavy stomach